O presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH), Bubacar Turé, defendeu a realização de um diálogo “franco, sério e construtivo” entre as forças vivas da nação, com vista a encontrar soluções para a crise que afeta a Guiné-Bissau, na sequência do golpe de Estado ocorrido no final do ano passado, que interrompeu o processo eleitoral no país.
Para a concretização desse diálogo, Bubacar Turé apelou ao envolvimento da comunidade internacional para ajudar os guineenses a reencontrarem-se.
Segundo o responsável, a Guiné-Bissau, isoladamente, não terá capacidade para realizar eleições num contexto marcado por “desconfiança mútua, suspensão das liberdades fundamentais e incerteza generalizada”.
“O país vive uma grave crise de desconfiança neste momento, e essa crise deve ser resolvida através de um diálogo franco, sério e construtivo que envolva todos os atores nacionais na procura de soluções”, afirmou.
Turé sublinhou ainda que não é possível avançar com eleições num ambiente de instabilidade.
“Não se pode ir às eleições num contexto de desconfiança mútua, suspensão de liberdades fundamentais e incerteza total. É importante que as autoridades e a comunidade internacional ajudem o país e os guineenses a reencontrarem-se, através de um diálogo em que todos possam apresentar soluções”, acrescentou.
O dirigente falava em entrevista ao jornal O Democrata, numa análise à situação atual do país, seis meses após o golpe de Estado, abordando o estado dos direitos humanos, o processo de transição política, o papel da comunidade internacional e as eleições previstas para dezembro.
Na ocasião, o ativista alertou para o impacto significativo da crise político-militar, destacando a suspensão dos apoios orçamentais por parte dos parceiros internacionais, com consequências diretas nos serviços sociais básicos, como saúde, educação, energia elétrica e acesso à água potável.
“O impacto é enorme. A suspensão dos apoios orçamentais prejudica o país e afeta diretamente os setores essenciais e a qualidade de vida da população”, afirmou.
Sobre a liberdade de imprensa, Bubacar Turé denunciou restrições no exercício da atividade jornalística, referindo que vários programas radiofónicos continuam suspensos por receio de represálias.
“Os jornalistas têm trabalhado com limitações. Muitos programas emblemáticos não foram retomados por medo de provocar reaçõesdas autoridades políticas e militares”, disse, embora reconheça alguma margem de atuação na informação ao público.
Apesar das críticas, o presidente da LGDH saudou a abertura ao diálogo do governo de transição liderado por Ilídio Vieira Té, com organizações da sociedade civil, considerando que esses contactos contribuíram para ultrapassar alguns problemas institucionais.
“Graças ao diálogo, algumas dificuldades foram superadas. No entanto, é fundamental que essa abertura seja alargada a todos os atores nacionais”, defendeu.
Relativamente ao processo de transição, Turé criticou as alterações legislativas aprovadas pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), alegando falta de debate público e transparência.
“As leis têm sido aprovadas em total secretismo. A Constituição foi revista sem legitimidade, uma vez que o CNT não tem competência para tal”, afirmou.
O responsável lembrou que a Constituição da República só pode ser revista por um parlamento eleito ou através de referendo.
“A Constituição é a lei fundamental do país. Qualquer alteração deve passar pelo povo. O que aconteceu foi lamentável”, considerou.
Em relação às eleições presidenciais e legislativas previstas para 6 de dezembro, o ativista manifestou dúvidas quanto à sua realização.
Segundo explicou, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) ficou tecnicamente impossibilitada após o ataque de 26 de novembro de 2025, que destruiu os seus equipamentos e servidores.
“A CNE é o órgão competente para gerir o processo eleitoral. Sem meios, não podemos falar de eleições”, afirmou.
Para além disso, Turé apontou restrições às liberdades políticas, incluindo limitações à atuação dos partidos e à realização de reuniões, como obstáculos adicionais.
Na sua perspetiva, dificilmente as autoridades conseguirão cumprir o calendário eleitoral proposto.
Quanto ao papel da comunidade internacional, o presidente da LGDH reconheceu a sua importância, mas sublinhou que a resolução dos problemas depende sobretudo dos próprios guineenses.
“O mundo enfrenta várias disputas geopolíticas e a Guiné-Bissau não está entre as prioridades internacionais. Cabe aos guineenses refletir e encontrar soluções”, afirmou.
Turé acrescentou que, embora a comunidade internacional possa apoiar, as prioridades globais tendem a relegar o país para segundo plano.
A Guiné-Bissau tem um histórico de instabilidade política e golpes militares desde a independência, em 1973, sendo frequentemente apontada como um dos países mais frágeis politicamente na África Ocidental.
Por: Alison Cabral
odemocratagb.

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