sexta-feira, 5 de junho de 2026

(…) - Havia uma vez um homem chamado Nino Vieira - disse Mamadú, com a voz grave como o rumor das ondas a quebrarem nas pedras do cais. Os olhos fixos num ponto distante, como se pescasse o passado no horizonte. - Lutámos com ele, meu neto. Lá no mato. Com fome.


Às vezes sem botas, apenas com sandálias de plástico e o coração na boca.
Fez uma pausa. Bebeu um gole de uarga, devagar, como quem bebe uma tristeza
que já não tem pressa de acabar.
- Mas tínhamos coragem. Coragem, Amílcar! - A voz subiu, virou trovão por um instante, depois amansou. - Isso é o que falta hoje nesta terra. Já não sabemos onde acaba a nossa vontade e começa a vontade dos outros, principalmente a vontade do povo.
Amílcar conhecia aquela história como o pescador conhece o cheiro do mar.
Cada repetição era um mundo diferente, as mesmas palavras, mas com novas sombras, novos pesos. Os nomes que o avô pronunciava - Nino, Cabral, Pindjiguiti - não eram apenas sons. Eram espíritos. Saíam da terra, sentavam-se entre eles, aqueciam as mãos na fogueira invisível da nossa memória coletiva.
- E Amílcar Cabral, avô? - perguntou ele, com aquela curiosidade que não conseguia disfarçar, que saía sozinha, como a água que encontra sempre uma fenda na pedra. - Como era?
Mamadú não respondeu de imediato. Tirou do bolso do casaco puído uma fotografia. Pequena. Em preto e branco, quase desfeita pela humidade e pelo tempo, com as bordas desfiadas como um segredo contado demasiadas vezes. Na imagem, um grupo de homens posava sob a sombra de um cajueiro monumental, armas erguidas, olhos famintos de futuro.
- Esta foto foi tirada no dia em que libertámos Quinara. - Apontou para uma figura magra ao centro. - Eu era o mais novo. Mas também o mais teimoso. Só me calei quando me puseram uma arma nas mãos.
Depois, com a voz de quem entra numa catedral, falou de Cabral.
- Amílcar Cabral era diferente, meu neto. Tinha a cabeça de um sábio, o coração de um povo inteiro, e a alma de um poeta. Não queria poder, como esses homens de hoje, de fatos caros e carros com ar-condicionado. Ele queria justiça. Queria Liberdade e Queria
Progresso. - Fez uma pausa, como se medisse o peso das palavras seguintes. - Escrevia como quem luta. Falava como quem sonha. E sonhava como quem dança, de olhos abertos, sem medo de cair.
Amílcar fechou os olhos por um segundo. Viu-o: Cabral, nascido em Bafatá,
agrónomo, poeta e revolucionário, que fora estudar para Lisboa e voltara com um vulcão no peito. Fundador do PAIGC em 1956, homem que unira balantas, fulas, mandingas, manjacos, pepéis, etnias que o colonialismo tentara convencer de que eram inimigas, numa única causa: a dignidade.
Morreu em 1973, às vésperas da independência. Uma bala comprada por mãos que nunca apareceram totalmente à luz. Mas o que ficou dele, as cartas, os discursos, as teorias escritas em papel barato de guerrilheiros, continuava a arder.
Bolama era assim: um lugar onde o passado não ficava quieto.
A ilha tinha a sua própria gramática, os tambores que chamavam para os djumbais nas noites de lua cheia, as vozes das mulheres mandingas no mercado, os griots que contavam histórias de Okinka Pampa, a rainha-guerreira dos Bijagós que, segundo a lenda, se transformava em pantera para proteger o seu povo. Balantas com as suas danças do kussundé. Fulas com canções melancólicas que pareciam feitas de saudade e savana. Manjacos que tingiam panos com índigo, azul-escuro como a noite antes da chuva.
Tudo coabitava em Bolama com uma harmonia que parecia desafiar a história.
Antes das crises. Antes dos homens de farda.
A mãe de Amílcar, Rosa, vendia frutas e castanha de caju no mercado da cidade.
Carregava os cestos na cabeça com um lenço florido, o ordidja, que parecia uma coroa. (…)
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By: Emílio Tavares Lima
in: O Palácio das Sombras (livro em construção)

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