sábado, 6 de junho de 2026

Populares da ilha de Maio em isolamento pedem ajuda do Estado

A Ilha de Maio integra o setor de Caravela e localiza-se no norte do arquipélago dos Bijagós. De acordo com o censo de 2009, é composta por sete ilhas — Botai, Cassucuta, Chediã/Tchedengha, Eticogue/Quiquia, Etimpen/Porto de Nhominca, N’tenbaca/Aghucussa e Sidja — e possui uma população total de 436 habitantes. Na altura, a ilha de Botai contava com 64 habitantes.

A ilha de Maio–Botai, apesar de ser uma das mais próximas do continente (Biombo e Bissau), enfrenta sérios problemas de transporte marítimo e falta de serviços de saúde. Para além das escolas construídas por iniciativa comunitária com apoio de ONG’s, a ilha não dispõe de presença efetiva dos serviços do Estado guineense, sobretudo nas áreas da saúde e transporte regular.

No setor da saúde, Botai integra a área sanitária de Formosa. Apesar de existir um posto de saúde construído com o apoio da Missão Evangélica, a infraestrutura ainda não está em funcionamento. Em situações de consultas, partos ou emergências, a população é obrigada a deslocar-se ao centro de saúde de tipo C, localizado em Formosa, que atende também as ilhas de Nagó, Maio, Chediã e Formosa.

As principais atividades económicas da ilha, assim como das vizinhas Nagó e Chediã, são a exploração de moluscos, sobretudo conchas (gandhi) e ostras, atividade predominantemente exercida por mulheres. Esta prática segue uma calendarização própria. As comunidades também produzem óleo de palma, exploram produtos silvestres (como cabaceiras) e, na época seca, dedicam-se à horticultura com apoio da ONG Tiniguena.

Os homens, além da agricultura, praticam a criação de gado bovino em pequena escala. A pesca artesanal é também uma atividade relevante, assim como o corte de chabéu e a extração de vinho de palma. Contudo, devido à falta de meios de transporte, a pesca é feita em pequena escala, levando os pescadores a transformarem o peixe em escalda (peixe salgado) para comercialização em Bissau.

À semelhança de outras ilhas, Botai não possui um porto estruturado para desembarque. A população enfrenta ainda dificuldades como a ausência de rede móvel, escassez de água potável e falta de transporte seguro entre as ilhas e o continente. Para viajar até Bissau, os residentes precisam deslocar-se a outras ilhas até chegar a Formosa, de onde partem carreiras regulares. Segundo apurou o semanário, a viagem de Botai a Formosa pode durar cerca de cinco horas em canoa a remo — meio frequentemente utilizado para deslocações longas.

No domínio da educação, a ilha dispõe de duas escolas, mas apenas uma está em funcionamento, sendo administrada pela Missão Evangélica. A outra encontra-se encerrada devido à falta de professores.

O conselheiro do régulo, José Albino, explicou que, após o encerramento de uma das escolas, a Missão Evangélica assumiu a continuidade do ensino, mediante acordo com a comunidade local.

A escola oferece ensino do primeiro ao sexto ano. Após essa etapa, as famílias são obrigadas a enviar os filhos para Formosa ou Bissau. Segundo o responsável, estão em curso diligências junto da missão para alargar os níveis de ensino, caso o Governo disponibilize professores.

Apesar da presença de Agentes de Saúde Comunitária (ASC) e de visitas ocasionais de técnicos de saúde, a comunidade continua a enfrentar grandes desafios no setor. Para evacuações médicas, contam com o apoio de instituições públicas, privadas e ONG’s.

Atualmente, segundo informações disponíveis, a comunidade dispõe de uma pequena embarcação pertencente ao pastor, utilizada nas evacuações para Biombo, concretamente para Ondame, nos arredores de Quinhamel.

José Albino afirmou que, embora o Estado tenha conhecimento dos projetos da comunidade, não há ações concretas no terreno. Destacou que a ONG Tiniguena foi pioneira na construção de uma escola, que posteriormente foi entregue ao Estado e à comunidade para funcionamento, mas sem resposta das autoridades, o que levou à sua paralisação.

A comunidade conta ainda com uma associação de mulheres horticultoras de Boté, criada com apoio da Tiniguena, que auxilia na produção e escoamento dos produtos para Biombo.

“As mulheres organizam-se em equipas para vender os produtos em Biombo. A viagem dura cerca de três horas, em canoa a motor”, explicou.

Recordou ainda que, no passado, existia um dos maiores hotéis do país, o Hotel Ilha de Maio, que deixou de funcionar após a guerra civil de 7 de junho de 1998. Atualmente, a estrutura encontra-se completamente degradada.

A ilha não dispõe de posto de segurança. Para resolução de conflitos, a comunidade recorre à Formosa, sede setorial, embora esta enfrente limitações devido à falta de meios de transporte.

“Infelizmente, nem sempre Formosa consegue responder às necessidades. Já flagramos ladrões a embarcarem gado roubado. Não conseguimos enfrentá-los porque estavam armados. Aqui, o principal alvo de roubo é o gado”, lamentou.

Apesar disso, afirmou existir boa relação com as autoridades de fiscalização, uma vez que são membros da mesma comunidade e participam na gestão dos recursos da área marinha comunitária de Urok.

“Botai-Maio faz parte da área marinha comunitária de Urok. Apesar das melhorias na qualidade da água promovidas pela Tiniguena, a população continua a enfrentar escassez de água potável”, disse.

José Albino, que também é responsável desportivo local, referiu que a equipa da ilha participa apenas em competições organizadas no setor de Caravela, geralmente durante as férias, mas ainda sem conquistas.

“A Ilha de Maio precisa de mais atenção do Estado. Não pedimos tudo de uma vez, mas um apoio equilibrado, porque somos todos guineenses. Não é justo privilegiar apenas uma zona. Aqui carecemos de quase tudo: transporte regular, serviços básicos e rede de telecomunicações”, concluiu.

Por: Epifânia Mendonça
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