segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné-Bissau. FMI chega a acordo técnico para nona e décima revisão do programa


O Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a acordo técnico com a Guiné-Bissau sobre o programa de ajustamento financeiro, o que permitirá o desembolso de 3,3 milhões de dólares, sujeito a aprovação pela direção do Fundo.

"O FMI e a Guiné-Bissau chegaram a um acordo técnico sobre as políticas económicas que poderão sustentar a nona e décima revisões da Facilidade de Crédito Ampliado [ECF, na sigla em inglês]; este acordo está sujeito a aprovação da direção do FMI, e dependente da implementação das ações previamente acordadas", lê-se num comunicado do FMI enviado à Lusa.

No comunicado, o FMI explica que, "se a revisão for completada, a Guiné-Bissau terá acesso a aproximadamente 3,3 milhões de dólares", cerca de 2,7 milhões de euros, e acrescenta que, apesar do atraso no programa devido ao golpe de Estado, os militares no poder mostraram-se empenhados em cumprir os objetivos do programa.

"Na sequência do acordo técnico alcançado em outubro de 2025 para a nona revisão, a implementação do programa em algumas áreas foi adiada devido à tomada do poder pelos militares em novembro de 2025; não obstante este desenvolvimento e as crescentes restrições financeiras, o governo de transição manifestou um forte compromisso com os objetivos do programa apoiado pela ECF", escrevem os técnicos do Fundo, no final da missão ao país, que decorreu de 03 a 13 de fevereiro.

No comunicado, o FMI anuncia ainda que "foi alcançado um acordo para prorrogar o programa por cinco meses, até 29 de dezembro de 2026", e sustenta que este prolongamento do programa "tem como objetivo consolidar as políticas económicas e apoiar a implementação do orçamento de 2026, que é fundamental para manter a sustentabilidade da dívida".

Citado no texto, o chefe de missão do FMI à Guiné-Bissau, Niko Hobdari, disse que "o crescimento económico da Guiné-Bissau deverá ter ficado nos 5,5% em 2025", com a inflação a descer para 0,9%, a dívida pública deverá ter melhorado para 74,3% do PIB, num contexto em que "a consolidação orçamental e políticas prudentes de endividamento são fundamentais para manter a dívida pública numa trajetória firme de descida a médio prazo".

A implementação do programa "enfrentou atrasos após a mudança de governo em novembro de 2025, o que, juntamente com condições financeiras regionais mais restritivas, aumentaram as restrições de financiamento e prejudicaram o desempenho do programa", escreve Hobdari, acrescentando que, "apesar destes ventos contrários, as autoridades de transição manifestaram um forte empenho nos objetivos do programa e tomaram medidas para reforçar a disciplina orçamental".

Entre estas medidas, o chefe de missão do FMI salienta "o reforço do controlo das despesas e a manutenção de um limite máximo zero para outras despesas comuns nos últimos meses" e afirma que "as autoridades já tomaram várias medidas corretivas acordadas durante a nona missão de revisão da ECF, em outubro, e têm vindo a implementar medidas adicionais em matéria de receitas e despesas como ações prévias das nona e décima revisões combinadas".

Há um mês, o FMI tinha anunciado que estava a "reavaliar o programa de assistência financeira à Guiné-Bissau, em curso desde 2023, aprovado no final de janeiro de 2023, num total de 37,9 milhões de dólares (32,6 milhões de euros), e aumentado no final desse ano para cerca de 53 milhões de dólares (46 milhões de euros).

Deste valor, a Guiné-Bissau já recebeu cerca de 50 milhões de dólares, mais ou menos 43 milhões de euros, desde o início do programa, em janeiro de 2023.

Os militares tomaram o poder a 26 de novembro de 2025, três dias depois das eleições gerais e um dia antes da divulgação dos resultados oficiais.

Lusa/16 Fevereiro 2026, 18:33

COMUNIDADE GUINEENSE DE CONACRI DOA MEDICAMENTOS AO HOSPITAL REGIONAL DE BAFATÁ PARA APOIAR VÍTIMAS DE INCÊNDIO



O Hospital Regional de Bafatá recebeu, esta segunda-feira, 16 de fevereiro, um lote de medicamentos destinados ao reforço do tratamento das vítimas do incêndio recentemente ocorrido na cidade.

A doação foi efetuada pela comunidade guineense de Conacri residente em Bafatá, num gesto de solidariedade para com os feridos e para apoiar a resposta da unidade hospitalar face à situação de emergência.

De acordo com informações recolhidas pela Rádio Sol Mansi, os medicamentos serão imediatamente integrados no plano de assistência médica aos pacientes afetados pelo incêndio, contribuindo para suprir necessidades prioritárias no atendimento e na recuperação dos mesmos.

A direção do hospital agradeceu o gesto e apelou à continuidade da mobilização solidária da sociedade para apoiar as vítimas.

RSM | 16.02.2026

«REPORTAGEM» ANTIGO INTERNACIONAL *ASTRO* GUINEENSE, AMADU NOGUEIRA PINTO SAMBÚ, É O ENTREVISTADO. "MISTER OLIVEIRA, CHAMAVA-ME DE EUSÉBIO", DIZ O AMADU NOGUEIRA

Natural de Mansoa, Guiné-Bissau, Amadu Nogueira Pinto Sambú, foi jogador Internacional pela selecção da Guiné, e, representou vários clubes em Portugal e teve a sua passagem no Qatar Sport Club (Ásia) na época 1995/1996 e 1997/1998.


PROTEÇÃO CIVIL DIZ NÃO TER MEIOS PARA COMBATER INCÊNDIOS DE COMBUSTÍVEL NA GUINÉ-BISSAU


O Serviço Nacional da Proteção Civil e Bombeiros afirmou não estar em condições de combater incêndios provocados por líquidos inflamáveis no país.

A informação foi avançada esta segunda-feira pelo comandante da corporação do Bombeiro, Francisco Correia, durante o programa Nô Segurança da Rádio Sol Mansi, sob o tema “Perigo do depósito de combustível a céu aberto”.

Numa menção ao recente incêndio num depósito de combustível na cidade de Bafatá, Correia explicou que há cerca de 40 anos os bombeiros não dispõem de espuma ou outros produtos especiais necessários para apagar incêndios de combustível e afirmando desde que chegou o bombeiro nunca viu este tipo de incêndio.

“Não temos condições de enfrentar incêndios provocados por combustível porque não temos os produtos necessários”, afirmou Correia.

Francisco Correia alertou ainda que a falta de equipamentos e de capacidade de resposta pode comprometer a segurança de investimentos no país, devido à proliferação de contentores.

“Quem quiser investir e vir o serviço de bombeiros sem condições terá dificuldade, porque o país está cheio de contentores de combustível”, advertiu Comandante da Corporação.

Questionado sobre o que a população deve fazer em caso de incêndio deste tipo, o comandante recomendou a evacuação imediata da área afetada, permitindo que as equipas tentem controlar o fogo.

“A primeira medida é retirar a população da zona e depois os bombeiros tentam combater o incêndio”, explicou Francisco Correia.

Recorde-se que uma das vítimas do incêndio em Bafatá, transferida para tratamento no Hospital Nacional Simão Mendes, em Bissau, morreu na madrugada de domingo, 15 de fevereiro. Dezenas de feridos continuam em tratamento.

RSM 16 02 2026

“O racismo mata”: precariedade agrava saúde mental de migrantes em Portugal


Edna Tavares, psicóloga clínica, que trabalha no apoio à saúde mental de pessoas migrantes e afrodescendentes. © RFI/Lígia Anjos

A psicóloga cabo-verdiana, Édna Tavares, alerta que o racismo, a discriminação e a precariedade laboral são hoje os factores que mais pesam na saúde mental das pessoas migrantes em Portugal. Entre processos de legalização, invisibilidade e falta de acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), muitas vivem em stress contínuo, sem tempo nem condições para parar e cuidar de si.

A psicóloga clínica cabo-verdiana Édna Tavares não tem dúvidas sobre o que hoje mais fragiliza a saúde mental das pessoas migrantes em Portugal: “o que pesa mais é a questão do racismo, a questão da discriminação”. No seu trabalho diário com migrantes e afrodescendentes, sublinha que estes factores se acumulam a um contexto de “visibilidade” desigual e a um silêncio persistente em torno do sofrimento psicológico.

Para a especialista, a saúde mental continua a ser “um tabu relacionado às pessoas migrantes”, e muitas chegam já com “uma carga emocional muito forte que não é valorizado”. A experiência migratória, diz, não é apenas um processo administrativo ou laboral: é também uma vivência emocional que, muitas vezes, não encontra espaço para ser reconhecida nem tratada.

Entre os elementos que mais pesam, Édna Tavares destaca ainda “a situação no contexto da legalização”, que se torna um foco constante de ansiedade. A incerteza documental, associada à falta de informação e à invisibilidade social, agrava a sensação de instabilidade e coloca muitas pessoas num estado permanente de alerta.

Ao mesmo tempo, a precariedade laboral surge como uma ferida estrutural. A psicóloga refere “a questão da discriminação laboral” e o facto de “haver muitas pessoas também na precariedade do trabalho”, realidade que “acaba por afectar em grande parte a questão da saúde mental”. Para muitos, o emprego não é sinónimo de protecção, mas de exploração, sobretudo quando o estatuto documental fragiliza a capacidade de denúncia.

Questionada sobre se é possível cuidar da saúde mental quando não há tempo para parar, a resposta é directa: “Não.” E explica porquê: “as pessoas não têm condições sociais que lhe permita parar” e, mesmo quando sentem que algo está errado, a sobrevivência diária impõe-se. No terreno, observa um dilema cruel: “entre escolher pôr a comida na mesa e tratar da saúde mental”.

A psicóloga descreve esta relação de acompanhamento como “uma relação muito ingrata”, porque o desejo de ajudar confronta-se com uma hierarquia de urgências: “tem que pagar a renda”, “as pessoas têm que comer”, “tem os filhos para levar para escola”, “tem a questão da documentação”. Mesmo quem trabalha e desconta “muitas das vezes mesmo assim há empresas que exploram”.

O impacto psicológico desse dia-adia, diz, é profundo. “Sim, tem um impacto grande”, confirma, explicando que o sofrimento se manifesta “no stress” e em episódios de ruptura visíveis no espaço público. Em casos extremos, o quadro degrada-se: “muitas das vezes aquilo que vimos é o suicídio”, e a dor deixa de ser apenas mental, tornando-se também física: “a descarga toda depois já vem para o físico”.

Édna Tavares insiste num ponto que considera incontornável: “o racismo tem impacto clínico”. E vai mais longe: “o racismo mata”. A violência não é apenas explícita; existe também “racismo silencioso” e “racismo institucional”. E, apesar de ser crime, denuncia um paradoxo: “provar o racismo, como é que se prova o racismo?”. Para quem já está fragilizado, acrescenta, é uma exigência devastadora: “a pessoa já está num momento muito vulnerável de saúde mental, ainda tem que provar que é vítima do racismo”.

Perante esta realidade, a resposta do sistema de saúde, segundo a psicóloga, está longe de ser suficiente. “Não”, afirma quando questionada sobre a preparação dos serviços. “Temos um déficit muito grande da saúde mental”, afirma, apontando também barreiras concretas: “muitas pessoas não estão inscritas”, “muitas pessoas não se conseguem inscrever” e, em casos ainda mais graves, quem “não tem um documento” e ficam sem acesso ao SNS.

Mesmo onde existem associações e respostas comunitárias, o caminho não é simples. Há “muita desinformação”, “pouca literacia” e dificuldades práticas, como deslocações e falta de confiança. “Multiplica vulnerabilidade”, resume, explicando que a fragilidade social se transforma rapidamente em fragilidade psicológica e vice-versa.

Quanto ao papel do Estado, Édna Tavares é contundente: “O estado não faz nada.” Para ela, o mínimo seria “mais meios”, mas também um reconhecimento claro do problema: “o estado tem que aceitar a discriminação, tem que aceitar que existe racismo, que o racismo cria desigualdades”. Defende ainda respostas de proximidade: “ter psicólogos, ter enfermeiros, ter pessoas capacitadas para reduzir ou minimizar o risco da exclusão”.

No centro de tudo, permanece o silêncio. “Falar-se de saúde mental imigrante não existe. Não existe. Não existe mesmo”, lamenta. A psicóloga integra uma rede de profissionais afrodescendentes e migrantes, a Afropsis, e afirma que até os próprios profissionais sentem esta realidade: “sentimos isso na pele”. E denuncia preconceitos persistentes: “dizem sempre imigrantes não tem problemas de saúde mental”, “imigrantes não têm depressão”, “imigrantes não sentem”.

Sem tempo, sem recursos e sem reconhecimento, muitos acabam por “silenciar” a dor. A psicóloga descreve estratégias de sobrevivência: trabalho incessante, tradições, “a música, com a dança”. Porque, como resume de forma brutalmente simples, “nós não temos tempo para chorar, não temos tempo para conviver, só temos tempo para trabalhar”. E, quando chega a noite, resta apenas o esgotamento: “quando chegamos a casa já é tarde”.

Por fim, Édna Tavares aponta ainda um vazio estatístico que, para si, não é inocente. “Não há dados sobre real dimensão populacional de imigrantes em Portugal”, afirma. E acrescenta: “nem propriamente o estado não tem números de imigrantes de certeza absoluta”, o que considera “uma escolha também de não recensear a sua população”. Num país onde milhares vivem na clandestinidade e na invisibilidade, conclui, a ausência de números é também uma ausência de responsabilidade.

Por:Lígia ANJOS
rfi.fr/pt

Primeiro-Ministro e Ministro das Finança, Ilídio Vieira Té, visitou o hospital Nacional Simão Mendes para se inteirar da condição dos afectados pela explosão num contentor que servia como depósito para venda de combustíveis em Bafatá.

Guiné-Bissau: Autoridades acusam Cabo Verde e Angola de "incoerência" e "fachada democrática"



As autoridades de transição da Guiné-Bissau classificaram hoje de "incoerência" e "fachada democrática" as declarações dos chefes de Estado de Cabo Verde e Angola sobre a crise política guineense na cimeira da União Africana.

O Conselho Nacional de Transição (CNT) reagiu, em comunicado lido pelo porta-voz Fernando Vaz e transmitido pela imprensa local, às posições assumidas pelos Presidentes de Cabo Verde, José Maria Neves, e de Angola, João Lourenço, durante o fim de semana, em Adis Abeba, na Nigéria.

Na 39.ª Cimeira da União Africana, organização que suspendeu a Guiné-Bissau desde o golpe militar de novembro de 2025, o chefe de Estado angolano condenou as mudanças inconstitucionais de governos no espaço da organização, posição corroborada pelo chefe de Estado de Cabo Verde.

As autoridades de Bissau reagiram hoje ao posicionamento dos dois líderes africanos, referindo-se à "postura de determinados chefes de Estado que, sob a capa de uma falsa diplomacia, tentam dar lições de moral e democracia à Guiné-Bissau enquanto as suas próprias casas padecem de muitos e outros males".

No comunicado lido por Fernando Vaz, Bissau refere-se "a memória curta" e a "incoerência" do Presidente de Cabo Verde, acrescentando que "tenta ressurgir com um discurso de preocupação pedagógica e sofrendo uma amnésia seletiva, para legitimar a sua interferência externa e a perceção de hipocrisia nas relações diplomáticas regionais".

Para as autoridades de transição guineenses, José Maria Neves, esquece-se que "a certidão de nascimento de Cabo Verde foi escrita com sangue derramado nas matas da Guiné-Bissau".

"A Guiné-Bissau não esquece quem lhe voltou as costas num momento crítico. Quem opta pela omissão estratégica não tem autoridade moral para vir depois tentar ditar regras de conduta. A soberania da Guiné-Bissau não é um joguete para exercícios de retórica em fóruns internacionais", acrescentou.

Para Bissau, "quando Neves se cala com as ofensas de Xanana Gusmão", que considerou a Guiné-Bissau "um Estado falhado", e com as lições de moral de João Lourenço, "valida uma hierarquia hipócrita da CPLP", a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, da qual os três Estados são membros.

O comunicado de Bissau aponta a seguir o que considera os "dois paradoxos", o golpe de urnas e o golpe de armas, do Presidente de Angola, João Lourenço.

"O Presidente angolano esquece-se, por conveniência, que eleições fraudulentas e processos viciados constituem por si só golpes constitucionais. Em Angola, o mundo assistiu a processos eleitorais onde a transparência foi sacrificada no altar da manutenção do poder", referiu.

Para o poder instalado em Bissau, o que ocorreu em Angola foi um golpe de Estado "feito de urnas manipuladas, esse mais pernicioso que o militar, pois é um golpe sem rosto, silencia a oposição, amordaça as instituições e mantém uma fachada democrática para consumo externo".

"Quem governa sob a sombra da fraude não pode apontar o dedo a crises de legitimidade alheias. A Guiné-Bissau exige respeito. Antes de olharem para Bissau, estes líderes olhem para os seus próprios problemas internos", prossegue o comunicado.

Para as autoridades guineenses, "Cabo Verde deve preocupar-se em resolver as suas crescentes tensões sociais e o desgaste das suas próprias instituições" e "Angola deve primeiro realizar eleições que não suscitem dúvidas globais sobre a sua veracidade".

"Ninguém pode dar lições de democracia, quando usa a própria democracia como máscara para o autoritarismo", acrescenta, concluindo que "a Guiné-Bissau resolverá os seus problemas sem a ingerência de quem confunda amizade histórica com vassalagem política".

*** A delegação da agência Lusa na Guiné-Bissau está suspensa desde agosto após a expulsão pelo Governo dos representantes dos órgãos de comunicação social portugueses. A cobertura está a ser assegurada à distância ***

Lusa