Primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez na fronteira de Tarajal, entre o território espanhol de Ceuta e Marrocos, neste dia 31 de Julho de 2026. AFP - JORGE GUERRERO
Nos últimos dias, cerca de 60 mil migrantes chegaram a partir de Marrocos ao enclave espanhol de Ceuta, segundo fontes policiais que também dão conta de 34 mortos na tentativa de fazer a travessia a nado. Uma situação perante a qual o primeiro-ministro espanhol efectua hoje uma deslocação urgente ao território, num contexto de críticas. A Itália disse pretender vedar à Espanha o espaço Schengen de livre circulação na União Europeia, desencadeando uma crise diplomática com Madrid.
Segundo fontes policiais, as chegadas que se registam nestes últimos dias -na sua maioria de jovens e adolescentes- continuaram ainda ao longo desta manhã, sendo ainda difícil saber com clareza o que causou a súbita chegada em massa de migrantes provenientes de Marrocos. Existem contudo relatos sobre a circulação nas redes sociais de boatos de que a fronteira espanhola estaria aberta.
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez que evoca "um ataque, uma violação da integridade territorial" do seu país e denuncia o papel das "redes mafiosas de tráfico de seres humanos", efectua uma deslocação ao enclave para se avistar com os responsáveis locais e com as forças policiais no local, tendo sido anunciado o envio de reforços policiais e militares, bem como a recondução de 25 mil migrantes a Marrocos.
Marrocos que até ao momento não fez qualquer comentário sobre o sucedido, deu conta da detenção de cerca de 30 pessoas depois de incidentes na fronteira.
As imagens da chegada massiva de migrantes a Ceuta estão a ser utilizadas pela extrema-direita europeia e americana.
Na Casa Branca, estão a ser usadas para defender a política de Donald Trump contra a imigração.
Na Europa, ainda ontem a chefe do governo italiano de extrema-direita, Giorgia Meloni, disse que pretende suspender a Espanha do espaço Schengen, declarações imediatamente qualificadas de "demagógicas" por Madrid, que convocou o embaixador italiano em protesto.
Apesar de não se poder estatutariamente suspender um país do espaço Schengen, a ideia de Meloni recolheu o franco apoio da Finlândia e da Dinamarca enquanto o chefe do governo alemão instou Madrid a reconduzir os migrantes à fronteira.
Já aqui em França, o Presidente Macron declarou que o seu país está disposto a ajudar a Espanha a gerir esta situação e, por outro lado, ordenou que o seu governo reforce os controlos na fronteira com a Espanha.
Esta que é a maior chegada de migrantes desde 2021, surge pouco depois de uma visita de Pedro Sánchez à Argélia a 20 de Julho, a primeira em quatro anos, depois de um longo mal-estar diplomático entre Argel e Madrid.
Em Maio de 2021, mais de 10 mil migrantes tinham chegado a Ceuta do vizinho Marrocos no espaço de apenas dois dias, num contexto de crise entre os dois países em torno do estatuto do Saara Ocidental, território cuja soberania é reclama por Marrocos. Esta crise apenas terminou em 2022, quando Madrid apoiou o plano marroquino para esse enclave, ferindo pela mesma ocasião a vizinha Argélia que apoia os independentistas sarauís.
Por: Liliana Henriques.fi.fr/pt