Esta visita constitui uma das etapas centrais da sua primeira digressão africana. Depois de passar pela Argélia e pelos Camarões, o Sumo Pontífice inicia hoje um programa que o levará a Luanda, Muxima e Saurimo, três locais que espelham diferentes realidades do país. A expectativa é elevada, tanto do ponto de vista religioso como social e político, num momento em que Angola enfrenta desafios profundos.
Para Dom José Manuel Imbamba, presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST) e arcebispo de Saurimo (leste de Angola), a visita acontece num contexto exigente para o país que “atravessa uma crise económica, social e cultural muito, muito profunda que está a afectar o próprio desenvolvimento das famílias e a realização dos seus sonhos”.
O responsável da Igreja Católica acredita que a presença do Papa pode trazer uma mensagem de esperança e mobilização: “É neste ambiente que o Papa trará a sua palavra de conforto, de esperança e de encorajamento”, apontando para a necessidade de construir “uma Angola mais irmanada, uma Angola mais reconciliada”.
A visita do Papa Leão XIV inclui três locais distintos: Luanda, Muxima e Saurimo. Para Dom José Manuel Imbamba, a escolha resulta da dinâmica pastoral do país. “Luanda é a capital política, a capital religiosa. Era incontornável”. Já o Kilamba, onde será celebrada uma missa campal, foi escolhido pela sua capacidade de acolhimento: “uma localidade urbana muito jovem, muito nova e dinâmica e que está a crescer e é o local que ofereceu o melhor espaço para acolher as milhares de pessoas.”
Sobre a Muxima, destacou o peso espiritual: “um santuário mariano, o coração de Angola em termos de espiritualidade mariana”, um espaço “secular que conhece vivências muito fortes”.
Quanto a Saurimo, sublinha o carácter simbólico da visita ao interior do país: “nunca tinham visitado o Leste e por isso achamos por bem que era a altura de o Santo Padre também vir conhecer esta realidade”, de uma região ricas em recursos naturais, mas que contrasta com a pobreza das comunidades.
Para o arcebispo, a visita também deve ser entendida como um sinal para o país no seu todo. “As oportunidades devem ser iguais para todos. As realizações devem se fazer sentir em todas as partes”. E acrescenta: “é um chamariz muito importante, o país é um todo”, sublinhando a importância das periferias e das zonas menos desenvolvidas.
O lema da visita de Leão XIV é “peregrino da esperança, da reconciliação e da paz” e, segundo o analista político angolano Osvaldo Mboco, o tema da reconciliação nacional continua actual.
“Faz sentido [continuar a falar de reconciliação] porque o conflito civil angolano terminou recentemente, há 24 anos. E olhando para a nossa própria história, os acontecimentos sociais, uma certa tensão política entre os angolanos, algumas feridas ainda não estão completamente saradas”, afirmou Mboco.
O analista considera que ainda existem sinais de divisão política no país, sobretudo entre os principais partidos. “Ainda é visível uma certa política de discriminação entre os dois maiores partidos Angola”, referindo-se ao MPLA (poder) e à UNITA (oposição).
Para Osvaldo Mboco, “ainda falta a busca do consenso e de diálogo para as questões estruturais dos dois grandes partidos políticos em Angola” e sublinha que “o país ainda fica muito a reboque das decisões das tensões existentes entre esses dois partidos políticos”.
Neste contexto, a visita do Papa poderá funcionar como um apelo à unidade e à superação de divisões, num momento em que Angola se prepara para um novo ciclo político. Esta deslocação acontece a um ano das eleições gerais, às quais o actual Presidente João Lourenço, não se poderá recandidatar, à luz da actual Constituição.
De acordo com o programa oficial da visita de Leão XIV a Angola, esta tarde o Papa deve encontrar-se com o Presidente do país, João Lourenço, e discursar para autoridades governamentais e representantes da sociedade civil.
No dia 19 de Abril, domingo, Leão XIV vai celebrar uma missa na centralidade do Kilamba (arredores de Luanda) e ao fim da tarde preside à oração do terço e ao encontro com peregrinos no Santuário da Muxima, um dos maiores centros de peregrinação da África subsaariana.
Na segunda-feira, 20 de Abril, o Sumo Pontífice tem previsto na agenda uma deslocação a Saurimo, no leste de Angola, que contempla uma visita a um lar de idosos e a celebração da Santa Missa.
Depois, no mesmo dia da parte da tarde, de volta a Luanda, Leão XIV deve encontrar-se com bispos, clérigos, religiosos, religiosas e agentes pastorais na paróquia Nossa Senhora de Fátima, da arquidiocese de Luanda.
Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita integra um périplo de dez dias ao continente africano, com passagens pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Comitiva que acompanha Papa Leão XIV composta por cerca de 80 membros
A comitiva que acompanha o Santo Padre nesta missão é composta por cerca de 80 membros, divididos entre as mais altas autoridades do Vaticano, conselheiros e funcionários de apoio.
Cardeais e Principais Autoridades
Os cardeais que integram a delegação oficial são:
· Cardeal Pietro Parolin: Secretário de Estado do Vaticano, uma das mais altas autoridades da Cúria Romana, responsável pela coordenação política e diplomática da Santa Sé.
· Cardeal Luis Antonio Tagle: Pró-Prefeito do Dicastério para a Evangelização, encarregado das questões missionárias e da nova evangelização.
· Cardeal George Jacob Koovakad: Prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, responsável pelas relações com outras religiões, um tema central na visita.
· Cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson: Chanceler da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, uma voz influente em questões sociais e económicas do continente africano.
· Cardeal Robert Sarah: Prefeito Emérito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, uma figura de grande respeito no mundo católico.
Outros Membros da Comitiva e Apoio
Além dos cardeais, a comitiva conta com:
· Monsenhor José Nahúm Jairo Salas: Responsável pela coordenação das viagens internacionais do Papa.
· Paolo Ruffini e Matteo Bruni: Responsáveis pela comunicação da Santa Sé, com Matteo Bruni, como director da Sala de Imprensa, sendo o principal porta-voz.
· Paolo Rudelli: O novo substituto, que acompanha o Papa, possivelmente com foco em questões específicas.
· Agostinianos: Devido à ligação pessoal do Papa Leão XIV com Santo Agostinho, alguns membros da ordem também integram a comitiva, especialmente na etapa da Argélia.
Convidados Especiais e Apoio Local
· Cardeal Fridolin Ambongo (RDC): Presidente do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagáscar (SECAM), a principal organização dos bispos africanos.
· Arcebispo Luis Javier Argüello García: Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, que também se junta à comitiva.
· Cerca de 40 Bispos Africanos: Vindos de seis países da África Central, que manifestaram intenção de participar dos eventos.
· 67 Jornalistas Internacionais: Acompanham a viagem para garantir a cobertura mediática mundial.