terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Região de Gabú: MULHERES GUERRILHEIRAS DE CAMUCA DESAFIAM A POBREZA COM PROJETOS AGRÍCOLAS E PECUÁRIA


[REPORTAGEM] A Cooperativa de Mulheres Camponesas da Região de Gabú (CAMUCA) mobiliza centenas de mulheres e jovens de diferentes setores e aldeias daquela região para a abertura de campos agrícolas, criação de galinhas e venda de ovos produzidos localmente, tanto para as populações locais como para as organizações internacionais que apoiam os programas de cantinas escolares.

A CAMUCA é uma cooperativa agrícola criada em 2021 e constituída por 17 associações de diferentes aldeias dos três principais setores, designadamente, Gabú, Pitche e Pirada. Conta com mais de 400 mulheres e dezenas de jovens que trabalham nos projetos agrícolas e na pecuária.

A organização camponesa, dirigida pela ativista social Professora Adama Candé, dispõe de campos agrícolas em diferentes aldeias, onde produz arroz e também abre campos hortícolas para cultivar legumes e tubérculos. Além disso, trabalha nos projetos de aviários com a criação de galinhas que fazem a produção de ovos vendidos localmente.

Na aldeia de Companghor, a CAMUCA conta ainda com dois aviários com mais de 300 galinhas, um com pintainhos a serem criados e outro com galinhas na fase de produção de ovos, dispõe igualmente de um campo agrícola de cerca de dez hectares, vedado com arame e com furo de água para irrigação, onde os membros das associações integrantes da cooperativa produzem diferentes tipos de legumes e alguns tubérculos para sustento familiar e venda às populações locais.

YOBA SEIDE: “GRAÇAS A COOPERATIVA TEMOS CAMAS DE MADEIRA E PAGAMOS ESCOLAS DE NOSSOS FILHOS”

A nossa equipa de reportagem visitou a bolanha de Companghor que conta com 38 hectares é considerada como uma das joias da CAMUCA, devido a sua capacidade de produção de arroz e na qual as associações integrantes da cooperativa sob a coordenação da mesma trabalham na produção de arroz para o sustento familiar e também vendem uma parte para resolveram as suas necessidades.

A equipa de reportagem falou com Yoba Seide, uma mulher camponesa de aparentemente mais de 50 anos de idade e que se identifica como a responsável de uma das associação integrantes da CAMUCA, explicou numa conversa mantida em dialeto fula por meio de um tradutor, que trabalham na referida bolanha na produção de arroz para garantir a sobrevivência das suas famílias.

“Atualmente com o apoio e formação recebida da CAMUCA, não limitaram apenas na produção para sustento familiar, mas conseguem já produzir para comer e tirar uma grande parte que vendem na cidade de Gabú”, disse a camponesa, para de seguida, avançar que trabalham igualmente na produção hortícolas, onde fazem diferentes variedades de legumes que são vendidos para a população local e às organizações internacionais que apoiam os programas de cantinas escolares.

“Compramos sementes e encomendamos as sementes até na Bambadinca e nas outras localidades para trabalharmos”, contou a camponesa ladeada dos seus companheiros, durante a entrevista.

Explicou que na sua aldeia a CAMUCA formou os seus associados e as suas filhas na corte costura, como também os seus filhos são formados na cria de galinhas e nas suas preparações para a produção de ovos.

Questionado sobre o que terá mudado nas suas vidas com os trabalhos que fazem de forma mais organizada, revelou que na verdade muitas coisas mudaram nas suas vidas, “dantes a maioria das mulheres destas zonas tinham colchões de palhas colocados em cima de paus cortados para fazer cama”.

“Hoje, graças à orientação da cooperativa, muitas mulheres compraram camas de madeiras com espumas e conseguimos enviar os nossos filhos para prosseguirem os seus estudos em Gabú e até em Bissau”, assegurou.

ALFA IAIA DJALÓ: “CADA DIA PRODUZIMOS ENTRE SETE A NOVE PLACAS DE OVOS”
A nossa reportagem visitou o aviário da aldeia de Companghor que conta mais de 300 galinhas, um com pintainhos que estão a ser criados e outro com galinhas na fase de produção de ovos, na qual entrevistamos o responsável de aviário, Alfa Iaia Djaló, que explicou na entrevista que o aviário é uma iniciativa da cooperativa que envolve seis aldeias, mas ele foi designado como responsável para cuidar de galinhas em colaboração com técnicos veterinários.

“Recebemos pintainhos comprados do Senegal e criados aqui com todo o cuidado para a produção de ovos. Conseguimos escolher por dia entre sete e até nove placas de ovos, que são vendidos para a comunidade e aos nossos grandes clientes”, disse, avançando que o dinheiro proveniente da venda de ovos e galinhas é usado para a compra de comida de galinhas e também para o tratamento das mesmas.

Contou, neste particular, que uma parte do fundo é tirado para emprestar aos associados de diferentes aldeias integrantes da cooperativa, através de uma seleção e critérios rigorosos bem definidos.

“Emprestamos dinheiro aos associados da cooperativa em diferentes aldeias para desenvolver as suas atividades e depois devolver. Definiu-se um prazo de três meses para devolver a quantia do dinheiro recebido da cooperativa”, explicou, para de seguida, frisar que algumas pessoas têm dificuldades de devolver o dinheiro, mas são pressionadas para pagar todo o valor recebido.

CAMUCA EMPENHADA EM DIVERSIFICAR A AGRICULTURA E MUDAR A DIETA DAS COMUNIDADES
A presidente da Cooperativa Agrícola das Mulheres Camponesas da região de Gabú (CAMUCA), Adama Candé, afirmou que um dos objetivos da cooperativa é desenvolver e diversificar as atividades agrícolas na região, mudar o comportamento e a dieta alimentar das comunidades.

A cooperativa está a desenvolver várias atividades dentro das comunidades em que atua, nomeadamente ave-pecuária, corte costura e horticultura com objetivo de mudar o comportamento e a dieta alimentar das comunidades onde intervém.

A professora e ativista social, Adama Candé explicou na entrevista que neste momento uma das atividades em que a cooperativa mais se concentrou é na ave-pecuária, na qual desenvolvem a cria de galinhas, a venda de ovos e carne.

“Recentemente, atribuímos certificados a 62 crianças e jovens, entre elas 48 meninas e 14 meninos e alguns dos formados estão a trabalhar, atualmente, em Gabú”, informou.

Relativamente ao projeto de cria de galinhas, disse que o projeto tem contado com o financiamento do Programa das Nações Unidas para a Alimentação (PAM), que considera ser um dos seus maiores financiadores para as diversas áreas da intervenção da sua organização a começar pelos projetos agrícolas (produção de arroz e hortaliças), todos financiados por PAM no quadro das suas atividades, que também compra os seus produtos agrícolas, incluindo os ovos para abastecer as cantinas escolares.

Adama Candé afirmou que a cooperativa vende ovos a um preço acessível, tanto para a comunidade como para as mulheres vendedeiras e também fornecem ovos aos restaurantes.

ʺUm dos objetivos das nossas atividades, sobretudo a ave-pecuária, é mudar o comportamento e a dieta alimentar das comunidades locais. O Programa Alimentar Mundial compra os ovos e frangos para distribuir nas escolas, porque os ovos são mais nutritivos e rentáveis. Isso permite ao PAM diversificar a dieta e garante que as crianças não passem todo o tempo apenas a comer o arroz”, enfatizou.

De acordo com a responsável da cooperativa CAMUCA, foi neste âmbito que se criou um projeto amplo para ajudar também as cantinas escolares, com o propósito de mudar a dieta alimentar das crianças.

Sublinhou que o trabalho que fazem não serve apenas para promover mudanças de comportamento, mas também contribuir para o aspeto económico das mulheres, porque os produtos cultivados localmente são comprados pelo mesmo financiador e depois distribuídos para as cantinas escolares.

“Temos o cultivo da batata-doce que terá a polpa alaranjada com a finalidade de introduzi-la nas cantinas escolares”, reforçou e disse que os produtos ainda não estão a ser distribuídos às comunidades, porque o fundo recebido por PAM é reembolsável, razão pela qual precisam gerar um fundo para assegurar as suas atividades e que futuramente possam distribuir para as comunidades, tendo em conta a acessibilidade e igualdade no processo.

“Foi um dos objetos que o PAM defendeu no acordo que assinamos assinado”, indicou.

Por: Assana Sambú/Jacimira Segunda Sia
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