Diana Andringa: “A autocensura é um grande risco para a liberdade de expressão”. AFP - STEPHANE DE SAKUTIN
Entre memórias de infância no Dundo e a experiência da prisão política em Portugal, Diana Andringa revisita uma relação com Angola, país onde nasceu e cuja história marcou o seu percurso pessoal e profissional. A jornalista e documentarista, fala do colonialismo, da independência e do pós-independência, reflectindo sobre identidade, liberdade e desigualdade num país rico em recursos, mas ainda atravessado por contradições sociais.
Quando pensa em Angola como território, e não com objectivo jornalístico, as primeiras imagens que evoca são pessoais. Distingue duas memórias centrais: a primeira é o Dundo, local onde nasceu, na então Linha do Norte, que identifica como uma referência fundadora da sua identidade. A segunda é política: o julgamento no Tribunal Plenário, durante o Estado Novo, por apoiar a independência de Angola. Recorda esse momento como decisivo, sublinhando o impacto de ter afirmado publicamente, perante juízes, o seu apoio à luta de libertação.
O 11 de novembro de 1975, data da independência, não foi vivido em Luanda. Diana Andringa encontrava-se em Portugal, mas afirma que o acontecimento ficou gravado com nitidez. O gesto simbólico que mais a marcou foi a substituição da bandeira portuguesa pela angolana, um momento que, segundo diz, sintetizou a ruptura histórica. Apesar da distância física, acompanhou o processo através do trabalho jornalístico e recorda textos e descrições que lhe deram a sensação de estar no local.
Para Diana Andringa, a independência representa uma experiência comum a muitos países africanos: um momento de libertação carregado de expectativas, mesmo quando os desenvolvimentos posteriores não correspondem ao projecto inicial. No entanto, considera que a independência não elimina todas as formas de dependência. Angola deixou de ser colónia, mas, na sua análise, continua sujeita a pressões de grandes interesses económicos e empresariais internacionais. Ainda assim, sublinha um ganho essencial: a afirmação da identidade nacional.
A jornalista não esconde a frustração com o percurso seguido após a independência. Resume esse sentimento numa frase recorrente: “não foi isto que nós combinámos”. O ideal que identifica passava por uma Angola mais igualitária, com justiça social e sem corrupção. Reconhece, contudo, que o contexto colonial deixou marcas profundas, nomeadamente uma formação académica e política limitada, e que muitos dos comportamentos actuais têm raízes nesse passado. Para ela, a análise crítica deve ter em conta a memória histórica.
As experiências que mais a marcaram na infância não foram apenas os grandes acontecimentos, mas situações do dia-a-dia que revelaram a complexidade cultural e social do país. Recorda histórias contadas por trabalhadores da casa, como a do cozinheiro que afirmava poder pescar em zonas perigosas por pertencer simbolicamente à “etnia dos crocodilos”, ou a reacção de surpresa de um empregado doméstico ao provar camarão pela primeira vez. Esses episódios, diz, ensinaram-lhe cedo a relativizar diferenças culturais sem as transformar em exotismo.
Outras memórias tiveram um impacto mais directo na sua consciência social. Lembra-se de ouvir, ainda criança, um comentário sobre um bife destinado a um gato, seguido da observação de que havia crianças que nunca tinham comido carne. Esse contraste revelou-lhe de forma imediata a desigualdade social existente. Também a percepção do racismo surgiu a partir de situações concretas, como os códigos de comportamento impostos à população negra no espaço público ou a existência de práticas religiosas segregadas, que lhe pareceram incoerentes desde muito cedo.
No presente, Diana Andringa manifesta preocupação com formas contemporâneas de censura, sobretudo aquelas que não são impostas de forma explícita. Destaca a auto-censura como um dos maiores riscos para a liberdade de expressão e associa-a directamente à precariedade laboral no jornalismo. Um jornalista em situação precária, defende, dificilmente consegue exercer o seu trabalho com independência, o que tem consequências directas para a qualidade da democracia.
O balanço que faz de Angola é marcado por uma dificuldade em aceitar a persistência de desigualdades extremas num país com muitos recursos naturais. A coexistência de elites muito ricas com populações em situação de pobreza continua a preocupá-la. A nível pessoal, mantém o desejo de ver reconhecida formalmente a sua ligação ao país, expresso na vontade de ser considerada angolana também do ponto de vista legal.
Entre Portugal e Angola, Diana Andringa defende a ideia de pertença múltipla e rejeita a noção de identidade exclusiva. Considera natural que uma pessoa possa ter mais do que uma pátria. A questão da independência, para si, mantém-se actual e universal: mais do que um episódio histórico, representa um desejo humano fundamental de autonomia e auto-determinação.
Por: Lígia ANJOS
fi.fr/pt/

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