A presidente da Associação dos Estudantes Guineenses em Ziguinchor (AEGBZ), Binto Seide, defende um maior acompanhamento dos estudantes guineenses por parte do Consulado da Guiné-Bissau naquela cidade senegalesa e apela ao Governo para negociar com o Senegal um acordo de bolsas de estudo.
Em entrevista aos enviados especiais do jornal O Democrata, Binto Seide reconheceu que o Consulado presta algum apoio aos estudantes, mas considera que o acompanhamento ainda é insuficiente face às dificuldades relacionadas com alojamento, alimentação e deslocações entre Ziguinchor e a Guiné-Bissau.
“O consulado apoia-nos, mas nem sempre”, afirmou, apontando também limitações de pessoal e de recursos para responder às necessidades da comunidade estudantil.
Segundo Binto Seide, a Associação tem procurado ajudar os estudantes recém-chegados a encontrar alojamento a preços acessíveis, mas os custos aumentaram significativamente nos últimos anos.
“Antes era possível conseguir um quarto por cerca de 20 mil francos CFA, através da intervenção da associação. Agora, mesmo por 25 mil francos CFA, é difícil encontrar”, explicou, acrescentando que até quartos avaliados em 30 mil francos CFA são atualmente escassos.
A dirigente estudantil apontou ainda as taxas cobradas nas fronteiras como outro obstáculo enfrentado pelos estudantes. Segundo explicou, deixaram de existir condições diferenciadas para os estudantes, que passaram a pagar os mesmos valores cobrados aos restantes viajantes.
“Agora, seja estudante ou não, é preciso pagar dois mil francos CFA”, afirmou.
De acordo com Binto Seide, a situação afeta particularmente os estudantes que necessitam de deslocar-se regularmente a São Domingos por motivos familiares ou pessoais.
“Um estudante cuja família luta diariamente para garantir a sua permanência aqui, sem qualquer apoio do Estado, tem muitas dificuldades em pagar quatro mil francos CFA por cada viagem”, declarou.
A responsável revelou que o Consulado da Guiné-Bissau já tem conhecimento da situação e apelou às autoridades para intervirem junto das entidades competentes.
“Pode não ser gratuito, mas pelo menos o valor poderia voltar a ser reduzido para mil francos CFA, como acontecia anteriormente”, defendeu.
A Associação dos Estudantes Guineenses em Ziguinchor conta atualmente com cerca de 116 estudantes inscritos. Binto Seide esclareceu, contudo, que ainda não existe um levantamento detalhado por universidade.
A área da saúde concentra uma parte significativa dos estudantes guineenses, com destaque para os cursos de Medicina, Enfermagem e Saúde Pública. Existem igualmente estudantes matriculados em Contabilidade, Administração, Transporte e Logística, entre outras áreas.
Segundo a dirigente, a proximidade geográfica entre a Guiné-Bissau e o Senegal constitui um dos principais fatores que levam muitos jovens a escolher Ziguinchor para prosseguir os estudos superiores.
“Tem a ver com a proximidade entre a Guiné-Bissau e o Senegal”, explicou, destacando também a facilidade de deslocação e a perceção de uma maior qualidade de ensino.
Binto Seide acrescentou que a formação em Ziguinchor proporciona ainda aos estudantes guineenses a oportunidade de desenvolver competências na língua francesa.
A maioria dos estudantes guineenses em Ziguinchor financia os próprios estudos.
“Posso dizer que praticamente 100% dos estudantes vieram estudar aqui com recursos próprios”, afirmou, ressalvando que alguns jovens beneficiaram de apoio da Rede Nacional dos Jovens Quadros para uma Guiné-Bissau Emergente (RENAJOQ-GB).
Para Binto Seide, as dificuldades económicas das famílias constituem um dos principais obstáculos à permanência dos estudantes na cidade.
Por essa razão, defende a criação de uma política de bolsas de estudo que permita ampliar o acesso ao ensino superior e orientar parte dos estudantes para áreas consideradas prioritárias para o desenvolvimento da Guiné-Bissau.
Apesar dos desafios, a dirigente considera positiva a integração dos estudantes guineenses na comunidade académica e na sociedade de Ziguinchor.
“De forma geral, a integração e o acolhimento têm sido muito bons”, afirmou.
Segundo a presidente da Associação, a relação entre estudantes senegaleses e guineenses é geralmente cordial, enquanto alguns docentes demonstram compreensão perante as dificuldades linguísticas enfrentadas pelos estudantes estrangeiros.
A responsável reconhece, contudo, a existência de pequenos conflitos, limitações no acesso à informação e situações que considera de tratamento desigual.
Questionada sobre a relação entre os cursos frequentados em Ziguinchor e as necessidades da Guiné-Bissau, Binto Seide destacou áreas como Medicina, Transporte e Logística, Contabilidade e Administração.
No entanto, entende que uma política nacional de bolsas poderia incentivar a procura de áreas consideradas estratégicas para o país, como a Agronomia.
“Se houvesse bolsas do Estado, a maioria escolheria cursos de Agronomia e outras áreas que correspondessem diretamente às necessidades do país”, afirmou.
A dirigente reconheceu, entretanto, que é difícil exigir que um estudante que financia integralmente a sua formação opte por uma área definida pelo Estado, sobretudo quando não existem garantias de emprego após a conclusão do curso.
Relativamente ao futuro dos estudantes após a conclusão dos estudos, Binto Seide afirmou que a maioria pretende regressar à Guiné-Bissau, embora alguns acabem por permanecer no Senegal devido às dificuldades de inserção profissional no mercado de trabalho nacional.
“A maioria regressa ao país, mas alguns permanecem aqui porque também é muito difícil encontrar emprego”, declarou.
Perante as dificuldades económicas enfrentadas pelos estudantes, a presidente da AEGBZ apelou ao Governo para negociar um acordo de cooperação com o Senegal na área das bolsas de estudo.
Binto Seide defende, em particular, a assinatura de um acordo com a Universidade Assane Seck de Ziguinchor, com o objetivo de facilitar o acesso dos jovens guineenses ao ensino superior.
“Há muitos jovens que pretendem vir estudar aqui, mas não têm meios financeiros. Uma bolsa ajudaria bastante esses estudantes”, afirmou.
Por outro lado, a dirigente considera que a Guiné-Bissau deve procurar estabelecer mecanismos de cooperação semelhantes aos existentes entre o Senegal e outros países. Aproveitou ainda a oportunidade para aconselhar os jovens que pretendem estudar em Ziguinchor a deslocarem-se para a cidade com objetivos definidos e espírito de disciplina.
“Apelo a todos os que querem estudar aqui para que venham com foco e disciplina”, afirmou, salientando que os estudantes devem estar preparados para enfrentar desafios relacionados com diferenças culturais e linguísticas.
Às famílias e encarregados de educação, deixou igualmente uma mensagem de encorajamento para que continuem a apoiar os seus filhos e educandos, apesar das dificuldades económicas.
“A única coisa que posso dizer aos pais e encarregados de educação dos estudantes aqui, em Ziguinchor, é que continuem a acreditar e a apoiar os seus educandos”, declarou.
Por fim, Binto Seide informou que a Associação dos Estudantes Guineenses em Ziguinchor pretende continuar a acompanhar os estudantes, particularmente na procura de alojamento e na resolução de dificuldades relacionadas com a permanência e integração na cidade senegalesa.
Por: Tiago Seide & Alison Cabral
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