Há famílias cabo-verdianas que passaram 40, 50 ou 60 anos sem notícias umas das outras. A página de Facebook Djudan Buska Nha Familia, coordenada por Isabel Semedo, tenta reconstruir esses laços através de nomes, fotografias, alcunhas e memórias dispersas por vários países. Cerca de 20 reencontros já foram possíveis, alguns em menos de uma hora.
Há histórias familiares que ficaram suspensas entre Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Portugal ou Estados Unidos. Algumas começaram com partidas forçadas pela pobreza e pela fome, outras perderam-se com o tempo, a distância e a ausência de meios de comunicação. Décadas depois, uma página de Facebook tenta voltar a ligar essas vidas.
A ideia nasceu depois de uma viagem de Isabel Semedo a São Tomé e Príncipe. “Toda a gente na sua família tem a história de alguém que partiu para São Tomé e não voltou”, conta. Ela própria não tinha esse percurso na família, mas conhecia desde pequena as histórias de quem tinha partido. Quando chegou ao arquipélago, percebeu a dimensão do problema. “Encontrei famílias, descendentes e pessoas que ainda estão lá. Foi muito, muito marcante. Apesar de tudo o que aconteceu, a palavra saudade é aquilo que mais lhes marca.”
Dessa viagem nasceu Djudan Buska Nha Familia, “Ajuda-me a encontrar a minha família”, em português. O ponto de partida era simples, criar um lugar onde pessoas separadas por décadas pudessem deixar um nome, uma fotografia, uma localidade ou apenas uma memória. “Têm muita saudade do país e, sobretudo, dos familiares que ficaram por lá e de quem nunca mais tiveram notícias. Uns há 60 anos, outros há 40”, explica Isabel Semedo.
Por detrás de muitas dessas histórias está uma página dolorosa da história cabo-verdiana. Isabel Semedo recorda a fome de 1947 e o envio de trabalhadores contratados para São Tomé e Príncipe, mas lembra que as separações se estenderam também a Angola, Moçambique e outras geografias da diáspora. “As pessoas foram para lá trabalhar, levaram a vida delas e foram perdendo contacto com os familiares em Cabo Verde.” Hoje, a página recebe pedidos vindos de vários pontos do mundo.
A procura começa muitas vezes com quase nada. “É como uma agulha num palheiro”, reconhece. Um nome incompleto, uma fotografia antiga, o nome de uma aldeia ou uma referência transmitida oralmente podem ser tudo o que resta. A equipa foi criando, com o tempo, uma rede de contactos em Cabo Verde, São Tomé e na diáspora, tentando cruzar documentos, testemunhos e informações recebidas pelas redes sociais.
Há um elemento que se revela muitas vezes decisivo, os nomes de casa. “Nós, cabo-verdianos, temos muito isso, o nominho”, explica. “Às vezes é ‘filho de tal’, ‘filha de tal’. E a partir daí temos conseguido encontrar pessoas.” Há famílias que enviam certidões, fotografias e documentos privados na esperança de que uma pista permita reconstruir uma ligação perdida.
Um desses casos foi o de Elsa, que procurava uma irmã desaparecida do radar familiar havia 40 anos. “Mandaram-me os dados, a fotografia, tudo. Em menos de uma hora conseguimos localizá-la através da página, dos comentários e das partilhas.” A irmã tinha passado por Cabo Verde e vivia em Portugal. “Foi uma história muito emocionante, triste e feliz. São sentimentos que se misturam.”
Outro reencontro marcou profundamente Isabel Semedo foi o de Manuel que procurava a mãe e os irmãos em São Tomé e Príncipe. Não tinha fotografia e nem sequer conhecia o nome verdadeiro da irmã. Sabia apenas que lhe chamavam “Nuna”. Através de uma segunda mensagem recebida pela página, a equipa percebeu que esse “nominho” correspondia a Valenciana Vaz Moreira. “Através desse Nuna encaixou tudo.”
Depois de cerca de 60 anos, os irmãos voltaram a encontrar-se. “Nós choramos com eles. Só quem vive é que sente uma coisa destas”, conta Isabel Semedo. Manuel, antigo GNR em Portugal, tinha passado praticamente toda a vida a procurar a família. “Ele disse-me que viajou por vários países sempre com isto na cabeça e que, no dia em que foi jurar bandeira para ser GNR, era o único que não tinha família.” Quando reencontrou a irmã, disse-lhe que tinha sido “o dia mais feliz da vida dele”.
Mas nem todas as histórias terminam num reencontro. E essa é, para Isabel Semedo, uma das partes mais difíceis do trabalho. “Falamos muito com as pessoas antes de publicar. Não somos profissionais, somos só pessoas que têm vontade e estamos no mesmo barco.” A equipa tenta recolher o máximo de informação possível, mas evita alimentar expectativas que talvez nunca se confirmem. “Dar falsas esperanças também é complicado.”
Há ainda casos em que a página serve de homenagem a quem procurou a família durante toda a vida e morreu sem conseguir regressar. Noutros, o reencontro torna-se real. Isabel Semedo recorda uma mulher filmada em São Tomé em 2025. A publicação chegou aos familiares, que a reconheceram, reuniram dinheiro e conseguiram levá-la a Cabo Verde. “Ficou lá três meses. Agora já voltou para São Tomé.”
Para Isabel Semedo, é talvez aqui que reside a força do projecto, em utilizar as mesmas redes sociais tantas vezes associadas ao ruído, à violência ou à desinformação para construir alguma coisa. “As redes sociais podem ser muito perigosas, mas, bem utilizadas, podemos fazer a diferença.” A página também recebe comentários xenófobos ou racistas, que prefere apagar em vez de alimentar confrontos.
Isabel resume esse espírito com uma expressão crioula: junta mon, juntar as mãos. “Estou sempre a agradecer às pessoas que comentam, que partilham. Isto é um junta mon, é juntar mãos para fazer algo de positivo.”
Por: Lígia ANJOS
rfi.fr/pt/

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