domingo, 21 de junho de 2026

Guiné Equatorial prepara-se para assumir próxima presidência da CPLP - ex-secretário-executivo

O ex-secretário-executivo da CPLP Murade Murargy declarou à Lusa que a Guiné Equatorial prepara-se para assumir a próxima presidência da organização e que esta cumpre o prometido aquando da adesão, embora considere que Portugal nada faz pelo país.

O ex-secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) anunciou à Lusa, numa entrevista feita por telefone no âmbito dos 30 anos que a organização assinala em 17 de julho, que a Guiné Equatorial prepara-se para assumir a presidência da organização, em 2027, e confessou que, pessoalmente, esse foi o motivo que o fez prolongar, por um ano, as suas funções naquele país africano, que cessaria este ano.

O atual conselheiro do Governo equato-guineense para os Assuntos dos Países da Língua Portuguesa defende que a Guiné Equatorial está pronta para assumir as funções – apesar de precisar do apoio dos outros países – mas necessitará de dar mais formação em língua portuguesa aos seus altos quadros, missão para a qual contribui, assegurou.

O embaixador, que esteve no secretariado-executivo entre 2012 e 2016, recordou que tal já foi feito no passado com Timor-Leste, para onde, na altura, foram enviados “sete conselheiros”.

“A Guiné Equatorial solicitou a entrada na CPLP logo em 1996, quando esta foi criada, mas houve objeção de um país”, contextualizou o diplomata.

Ao iniciar as suas funções na CPLP, a pedido do Presidente moçambicano Armando Guebuza, que detinha a presidência da comunidade, foi rapidamente confrontado com a questão do pedido de adesão da Guiné Equatorial.

“Quando comecei a exercer as minhas funções, tive de imediato uma visita a Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, onde estava também o Presidente [da Guiné Equatorial Teodoro Obiang Nguema Mbasogo], que me solicitou uma reunião para reiterar o seu pedido de adesão”, recordou.

“Ao regressar a Lisboa, enviei à Guiné Equatorial um roteiro – que já tinha sido feito, com principal contribuição do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros português Luís Amado – com tudo o que tinham de cumprir”, prosseguiu.

Para que esta nação fosse integrada, teve de se comprometer a abolir a pena de morte da Constituição e a introduzir a língua portuguesa no país, entre outras questões.

“Prometeram fazer uma moratória à pena de morte e fizeram-na”, frisou.

Relativamente à língua portuguesa, garante que “aos poucos, o trabalho foi sendo feito” e criticou Portugal por não se ter empenhado em ajudar mais.

“Não podemos esperar que uns velhotes de 70 ou 80 anos falem português. Mas hoje, talvez, a juventude já fale”, disse.

Questionado sobre se a Guiné Equatorial, um dos países africanos exportadores de petróleo, não tem fundos para financiar as próprias medidas de incentivo à língua portuguesa, respondeu que “sim”, mas reiterou que “é preciso que outros países também participem, porque a língua não é só da Guiné [Equatorial]” e “Portugal é o maior interessado”.

Segundo o diplomata, em contraste face a nações que criaram centros culturais e de aprendizagem, assim como bolsas de estudo, “Portugal nada faz com a Guiné Equatorial, mas exige que esta fale português”.

“Eu próprio, que sou conselheiro do Presidente, dou aulas de português aos funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros”, referiu.

Sobre a pena de morte, o conselheiro frisou que esta já não se aplica e que a situação “foi tratada”, pois foi “abolida da Constituição”.

Questionado sobre o facto de a Guiné Equatorial ser considerada, em vários estudos, um dos países mais repressivos do mundo, respondeu que vive lá há oito anos e não reconhece “repressão nenhuma”, mas salvaguardou “que todos os países têm cadeias”.

Murargy recordou ainda a cimeira de Díli, em 2014, com orgulho, tendo sido nesta que foi anunciada pela presidência timorense, antes da reunião de chefes de Estado e de Governo sobre o tema, a adesão da Guiné Equatorial.

“Eu sinto orgulho de ter sido secretário-executivo durante a primeira cimeira de Díli. Produziu muitos resultados. Se a cimeira durasse mais tempo, nós até podíamos ter criado um banco de desenvolvimento”, indicou.

A CPLP, que assinala 30 anos dia 17 de julho, é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Lusa

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