Karyna Gomes, Lisboa 2026. © Luís Guita
Cada vez mais inserida na chamada Música do Mundo, Karyna Gomes decidiu montar e liderar o festival que a própria baptizou de Kanta Na Kasa com o qual pretende juntar famílias de todas as idades, dentro da Mandjuandadi, uma filosofia bem guineense marcada pela partilha da música, da dança, da galhofa e de comes e bebes.
Karyna Gomes quer com o Kanta Na Kasa colocar a Guiné-Bissau na rota de festivais que acontecem um pouco por toda África Ocidental nestas alturas do ano.
Essa iniciativa vem numa necessidade de que temos na Guiné-Bissau independentemente da nossa situação conjuntural termos um festival de referência para fazer jus à dinâmica que existe na sub-região. A escolha do mês de Abril é propositada para que possamos entrar naquilo que eu chamo de rota de festivais de referência que acontecem em Cabo Verde, na Costa do Marfim e no Senegal e a Guiné-Bissau fazendo parte dessa geografia fica de fora com todo o potencial que tem independentemente de todas as circunstâncias que nós temos vivido.
Com o patrocínio de um banco de Bissau, a primeira edição do festival Kanta na Kasa vai ter a mulher como o enfoque principal.
O que vai acontecer são dois dias de concertos, dois concertos por dia, quiosques com enfoque na mulher, no empreendedorismo feminino, para dinamizar não só as empreendedoras formais, mas também as informais. Realizamos concerto surpresa no mercado (central de Bissau) onde sorteamos alguns quiosques para dar oportunidade àquelas mulheres que vendem informalmente a terem também um negócio formalizado através da nossa parceira com o nosso principal patrocinador que é Ecobank que tem um projeto ligado à mulher que se chama elevar, Eleved, e com isso, consolidando essa primeira fase nós contamos continuar com o festival que conta ser anual, como já disse com esse objetivo de dinamizar esse sector. É alternativo porque nós sabemos que a Guiné tem tido um momento artístico, mas é um movimento artístico que eu vejo como positivo, mas é massificado e com o foco nos jovens e com um line up e a música jovem. Mas, há um outro mercado alternativo bastante potencializado nos países da sub-região que é o mercado do jazz, da world music e também da música que em parte é mainstream que é digamos assim pop, mas que está focado na performance ao vivo. Na execução ao vivo com músicos de qualidade. Então, nós queiramos oferecer essa alternativa também não só para esse público que não vai aos (concertos) nos estádios às 3 da manhã, mas um público que tem uma certa idade, quer crianças, quer idosos, que possam também, famílias inteiras, participar de um evento que começa num horário que dê para todas as idades, de todas as faixas etárias.
A música faz parte do quotidiano do guineense desde sempre, mesmo durante a luta armada pela libertação, mesmo em momentos de combates ferozes, os guerrilheiros nunca deixaram de lado os bons momentos musicais.
Karyna Gomes sabe que a Guiné-Bissau passa por momentos conturbados, mas ainda assim diz que um festival musical é bem-vindo.
Faz todo o sentido porque nos momentos mais difíceis da vida pública guineense a música sempre fez parte, desde a época de José Carlos Schwarz quando nós vivíamos intensas batalhas nas matas foi através da música que se conseguiu duas coisas: entreter as massas e mobilizá-las também para as causas que nós precisamos lutar, as causas que nós precisamos nos basear para lutar, então eu acho que a música faz todo o sentido nestes contextos também como forma de reconciliação, de reconciliar as pessoas como forma de entreter as pessoas e como forma também de elevar a consciência nacional para a importância de sermos guineenses sobretudo.
Tina é um dos géneros musicais característicos da cultura guineense. Karyna Gomes promete brindar o público que for ao festival cantares batidas de Tina produzidas pela própria.
Com certeza, este festival é inspirado na filosofia das mandjuandadis que vai além da música. A mandjuandadi é ser guineense, é a nossa matriz da nossa nação, digamos assim. É nas mandjuandadis que aprendemos a lidar com quem é diferente de nós como um dos nossos, juntamos e caminhamos juntos há séculos. Este festival vai ter uma presença forte da Tina tocada por mim e presentear ao publico da Guiné-Bissau com aquilo que eu acho de mais característico que temos como guineenses. Ou seja, somos diferentes, mas somos um.
Guilherme Sá Filipe, presidente da Sociedade Guineense de Atores saúda a iniciativa da Karyna Gomes, mas lamenta que a primeira edição do festival Kanta na Kasa esteja a acontecer em Bissau.
Na verdade, falta espaço para mais festivais a nível da cidade de Bissau, quando digo à nível da cidade de Bissau deveria ser extensivo também a todas as regiões, porque não podemos dar ao luxo de tudo for bom, numa primeira iniciativa, que fique permanentemente em Bissau. As restantes regiões também merecem tudo do bom e do melhor. Por isso mesmo eu acho que vamos ter de parabenizar a iniciativa e que venham mais iniciativas desta natureza dos outros artistas guineenses
Talvez a grande maioria de guineenses possa estar a pensar que o momento não será propício para festivais de música, Guilherme Sá Filipe tem outra opinião.
Faz sempre sentido porque os festivais lavam as nossas almas. Cada um de nós tem uma parte humana com carne e osso, mas tem uma alma vivente e essa alma vivente só é acarinhada, é educada através de obras intelectuais. Quando digo isso significa que a música, a literatura, cinema e demais criações artísticas, literárias que favorecem a humanidade, favorecem o ímpeto criativo do homem, favorecem a vivência propriamente entre homens como seres dignos desse nome. Portanto é sempre bem-vindo. Onde a situação é complicada a poesia acalma, onde a situação é complicada, se o dirigente compreender, a música acalma, por isso mesmo é sempre bem-vinda iniciativas dessa natureza.
Por: Mussá Baldé
rfi.fr/pt/

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