domingo, 5 de abril de 2026

Setor de Mansoa: MULHERES HORTICULTURAS TRAVAM LUTA PELA ÁGUA PARA GARANTIR ALIMENTOS E AUTONOMIA


Centenas de mulheres da Cooperativa Hortícola da Associação Juvenil de Filhos e Amigos de Mansoa (AJUFIAMA) enfrentam diariamente a escassez de água, situação que compromete a produção agrícola, reduz o rendimento das famílias e ameaça o objetivo de autonomia financeira destas trabalhadoras. A horticultura, além de garantir alimentos, era uma das principais fontes de rendimento para estas comunidades.

A denúncia foi feita pelo assistente técnico da cooperativa, Luís da Silva, em entrevista ao jornal O Democrata, onde descreveu a crise que afeta centenas de horticultoras de Mansoa desde que o painel solar que alimentava a eletrobomba de irrigação foi roubado. A cooperativa foi criada em 3 de outubro de 2010 com o objetivo de reduzir a dependência das mulheres da produção de sal iodado e da venda de vinho de palma — atividades desgastantes e com fraca remuneração.

Segundo explicou, na fase experimental do projeto, a produção anual oscilava entre 300 e 400 quilos de legumes, com tendência crescente. Caso o ritmo tivesse sido mantido, a cooperativa poderia abastecer o mercado regional e até o setor autónomo de Bissau.

O sistema de irrigação — uma eletrobomba alimentada por energia solar — permitia regar todas as parcelas. O roubo do painel, no entanto, paralisou totalmente o trabalho no campo, prejudicando dezenas de comunidades e milhares de famílias que dependiam da produção hortícola.

MULHERES VIVEM AGORA DE PRODUÇÃO DO SAL IODADO E DE VENDA DE VINHO PALMO

O roubo interrompeu a expansão prevista para a produção na época das chuvas, que incluía o cultivo de melancia. Sem capacidade de irrigação, muitas mulheres abandonaram a horticultura e retomaram atividades pouco rentáveis, como a produção de sal iodado e a venda de vinho de palma.

A falta de meios de conservação e transformação também tem levado as horticultoras a venderem os produtos em feiras populares (Lumos), onde os preços são baixos devido ao fraco poder de compra das comunidades locais.

“O campo está inativo há quatro anos. Restam apenas as vedações”, lamentou Luís da Silva, recordando que o projeto incluía um furo de água, uma bacia de retenção e valetas de irrigação.

A fase experimental enfrentou perdas significativas, devido a desafios na conservação, armazenamento e transporte para Bissau. A situação agravou-se porque as sementes fornecidas pelo Ministério da Agricultura nem sempre germinaram, o que levou a cooperativa a considerar futuramente a produção local de sementes.

Luís da Silva, formado em extensão rural pelo projeto Olof Palm de Bula, afirmou que a cooperativa nunca recebeu assistência técnica do Ministério em matéria de técnicas modernas de produção agrícola.

Durante os primeiros anos, cada horticultora contribuía com 300 francos CFA para manutenção do campo. A cooperativa nunca recebeu subvenções, créditos ou financiamento externo, funcionando apenas com fundos próprios.

Após a paralisação das atividades, foram criadas seis caixas de poupança geridas pelas mulheres para garantir alguma estabilidade financeira. Contudo, estas caixas eram mais rentáveis quando a produção hortícola estava ativa.

Além da horticultura, a cooperativa prestava assistência nas bolanhas de mangal e de argila e, com apoio do Programa Alimentar Mundial (PAM), abriu um canal de cerca de quatro mil metros no Rio Mansoa para melhorar a irrigação. Porém, o motocultivador existente está atualmente avariado.

“Queremos modernizar as nossas atividades, mas falta-nos um interlocutor credível para avançarmos com as iniciativas de recuperação”, lamentou o técnico.

Outro desafio recorrente é a invasão de gado pertencente a criadores de etnia fula, que destrói hortas e campos agrícolas. Os conflitos são geridos por um grupo de anciãos e pelos comités de tabanca, antes de serem encaminhados às autoridades policiais ou judiciais.

“Trabalhar com vinho de palma é uma exploração extrema e não garante o sustento da família”, criticou Luís da Silva.
A horticultura, além de sustentável, tem valor nutricional e medicinal. Entre as culturas produzidas estavam tomate, repolho, cenoura, malagueta, pimenta, alface e beterraba — esta última pouco consumida em Mansoa, apesar dos seus reconhecidos benefícios para a saúde.

Luís reforça que o objetivo era transformar a beterraba num alimento de consumo regular, levando “saúde do campo para as famílias de Mansoa e de toda a Guiné-Bissau”.

Por: Filomeno Sambú
odemocratagb

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