Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. © Cristiana Soares
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, defendeu esta manhã, em Addis Abeba, um reforço do papel de África na governação global, alertou para os conflitos persistentes no continente e apelou ao fim da exploração dos recursos naturais africanos: “Chega de exploração, chega de pilhagem”. Na abertura da 39.ª Cimeira da União Africana, Guterres insistiu na reforma do Conselho de Segurança, classificando como “indefensável” a ausência de África como membro permanente.
A intervenção ocorreu na cerimónia de Num discurso marcado por agradecimentos e advertências, Guterres descreveu a organização continental como “um símbolo do multilateralismo” num contexto internacional de “divisões e desconfianças”. O líder das Nações Unidas sublinhou ainda o apoio africano ao longo dos seus mandatos: “Levarei sempre comigo o apoio inabalável e decisivo do grupo africano na ONU. Questão após questão, iniciativa após iniciativa, na luta partilhada por justiça e igualdade.”
Guterres voltou a insistir na reforma do Conselho de Segurança, classificando como “indefensável” a ausência de assentos permanentes para África. “Estamos em 2026, não em 1946. Quaisquer que sejam as decisões sobre África e o mundo que estejam em cima da mesa, África deve estar à mesa.”
O secretário-geral destacou três áreas prioritárias, começando pela paz e segurança. Referindo-se ao conflito no Sudão, apelou a uma cessação imediata das hostilidades. Sobre a República Democrática do Congo, defendeu que “os compromissos devem ser honrados, começando por um cessar-fogo imediato, em respeito pela integridade territorial”. Já na República Centro-Africana, sublinhou que “os ganhos políticos e de segurança devem ser consolidados”, enquanto na Líbia reiterou a necessidade de “um processo liderado pelos líbios”. Na Somália, considerou “vital” o financiamento sustentado e previsível da missão de apoio e estabilização da UA.
No plano económico, Guterres alertou para o défice de financiamento enfrentado pelos países em desenvolvimento. Criticou os custos da dívida e os fluxos financeiros ilícitos. “Todos os anos, África perde mais em pagamentos de dívida e fluxos ilícitos do que recebe em ajuda.” O secretário-geral defendeu a reforma da arquitectura financeira internacional e o reforço da capacidade de empréstimo dos bancos multilaterais de desenvolvimento.
A acção climática constituiu o terceiro eixo da intervenção, com António Guterres a sublinhar o potencial africano em energias renováveis. “África possui 60% do melhor potencial solar do mundo, mas recebe apenas 2% do investimento global em energia limpa.” O responsável apelou ao aumento do financiamento para a adaptação climática e à aceleração de uma transição energética justa. Foi neste contexto que abordou os minerais estratégicos: “Chega de exploração, chega de pilhagem. Os povos de África devem beneficiar dos recursos de África.”
Esta é a última cimeira da UA para António Guterres, enquanto secretário-geral da ONU, todavia rejeitou que a sua presença fosse encarada como uma despedida, garantindo que o continente permanecerá no centro das prioridades das Nações Unidas. “Até ao último momento do meu mandato, África será a prioridade número um da ONU.”
A cimeira marca o fim da presidência rotativa da UA, com Angola a passar o testemunho ao Burundi. O Presidente Évariste Ndayishimiye assume a presidência do Conselho Executivo, sucedendo a João Lourenço, e herdando dossiers sensíveis como o conflito entre a República Democrática do Congo e o Ruanda. É a primeira vez que o pequeno país dos Grandes Lagos assume a liderança da União Africana.
O conflito no Sudão é um dos maiores desafios da cimeira. Segue-se o reconhecimento da Somalilândia por Israel, a 26 de Dezembro de 2026, aumentando o risco de encorajar movimentos separatistas.
A situação política na Guiné-Bissau, suspensa da União Africana - na sequência da tomada do poder pelos militares - também deverá marcar a ordem dos trabalhos. Esta cimeira fica ainda marcada pelo fim da suspensão da Guiné-Conacri e do Gabão, que podem assim regressar ao seio da organização.
A 39.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana decorre entre hoje e amanhã em Addis Abeba, na Etiópia.
Por: Cristiana Soares
rfi.fr/pt/

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