quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Região de Cacheu: AMBIENTALISTAS APONTAM POMARES DE CAJÚ COMO UMA AMEAÇA ÀS FLORESTAS NA GUINÉ-BISSAU


[Reportagem publicada na edição impressa de 08 de janeiro de 2026] O Secretário executivo da Plataforma Nacional de Tarrafes (PLANTA), Rui Andrade, alertou que a expansão extensiva de pomares de cajú na Guiné-Bissau-Bissau é uma preocupação que não deve ser ignorada, por representar uma ameaça a várias espécies florestais e que está a destruir as matas do país.

Em entrevista exclusivamente ao Jornal O Democrata, no âmbito do quarto encontro de Plataforma dos Atores da Paisagem Jeta-Pecixe-Cacheu, do projeto Wetlands for Resilience, o ambientalista destacou os benefícios da Paisagem JPC, tendo anunciado que o projeto Wetlands for Resilience perspetiva promover dinâmicas paisagísticas e fomentar a articulação entre os diversos atores para o desenvolvimento de um ambiente social, económico, natural e financeiro favorável da paisagem da zona.

“EXPLORAÇÃO DE CAJÚ É TEMPORÁRIA E O SEU IMPACTO NEGATIVO É DIRETO NO SOLO” – AMBIENTALISTA
Para além de apontar a expansão extensiva da plantação de cajú como uma preocupação do departamento que representa, o ativista afirmou que algumas pessoas estão a destruir matas para plantar pomares de cajú, justificando que a exploração de cajú é temporária, sem contar com o impacto negativo direto da sua planta no solo, enquanto palmar a sua exploração é constante com mais benefícios, apontando (vinho, chabéu, vassoura, cibe para a construção e óleo de palma para alimentação).

Segundo Rui Andrade, no âmbito da Paisagem Jeta, Pecixe-Cacheu (JPC), foram criados viveiros florestais onde concentram diversas espécies de plantas florestais e árvores de grande porte, para o restabelecimento florestal, incluindo frutos silvestres que considerou nutritivos para a dieta alimentar.

Outra preocupação manifestada por Rui Andrade tem a ver com as zonas costeiras, que “apresentam ameaças”, sobretudo no que se refere à erosão, à construção e às intervenções irregulares nas bocanas de rios, que contribuem grandemente para um desgaste da terra e o avanço significativo da água.

Embora considere ainda ser possível travar a situação da erosão, através das ações e colaboração das comunidades e das autoridades, usando transversalmente intervenções da plantação capaz de travar o avanço da água, Rui Andrade defendeu que é importante evitar construções ou interferências próximas das zonas costeiras, dos parques e dos mangais.

“É o mínimo que se pode fazer. É uma maneira de ajudar no problema das alterações climáticas, ventos fortes, ondas mais altas. Tendo mangal em bom estado de saúde pode ajudar a proteger as bolanhas, permitir que os diques de cintura não fiquem estragados”, assegurou.

Indicou, neste particular, que foi um dos aconselhamentos que a Plataforma tem deixado e continua a deixar às comunidades.

O Secretário executivo da PLANTA, revelou na entrevista que a Guiné-Bissau conta com 320.000 hectares de mangais (tarrafes).

O ambientalista anunciou que estão a preparar uma lei que proibirá a exportação dos mangais (tarrafes) para outras zonas e o documento será submetido à aprovação do governo e da Assembleia Nacional Popular (ANP) para a sua validação e posteriormente será divulgado.

“A PLANTA foi criada em 2020 para dar auxílio ao Ministério do Ambiente, Biodiversidade e Ação Climática, com a finalidade de apoiar na elaboração de alguns documentos, políticas, estratégias e identificação de projetos”, afirmou.
O ambientalista disse que os mangais no país estão num estado saudável e que a região de Cacheu constitui uma zona importante em termos de superfície de mangal, onde se observa tarrafes de uma forma contínua nos braços do todo o Rio Cacheu.

Apesar do estado saudável que os mangais do país apresentam, Rui Andrade alertou para riscos e ameaças que essa espécie enfrenta nas zonas de acampamento dos pescadores artesanais, turismo descoordenado em massa, onde as pessoas derrubam mangais em grande quantidade para construir as suas obras, a construção das estradas sem fazer aquedutos da circulação da água, que não permitem a oxigenação dos mangais e como consequências, os mangais morrem.

Rui Andrade apontou como um dos exemplos, a bolanha que liga o Rio São-Vicente à localidade de Antotinhin, que não teve nenhum aqueduto que permitisse manter a estrada intacta, porque “as pessoas estão a construir nas zonas de tarrafes. São fatores que ameaçam os nossos mangais”.

Informou que no grupo dos mangais existem duas espécies que estão em regeneração como é o caso do magal avicennia e rhizophora, que têm recebido ameaças devido à destruição dos diques das bolanhas e que tem impactado diretamente nessas duas espécies, resultado da forte correnteza da água.

De acordo com o responsável botânico, independentemente dos mangais, o país apresenta um bom estado dos palmares, com espécies naturais e espontâneas, independentemente de algumas de Moçambique que foram introduzidas nas zonas de granjas da Guiné-Bissau.


CONSULTOR DA PLATAFORMA DA PAISAGEM JPC DEFENDE A CONTINUIDADE DO PERÍODO DE REPOUSO BIOLÓGICO
O ambientalista associado a Wetlands Internacional e consultor para a implementação da Plataforma de Atores da Paisagem de Jeta, Pecixe-Cacheu, Joãozinho Sá, assegurou que a Guiné-Bissau está num bom caminho ao nível das zonas húmidas, mas defendeu que é importante continuar a observar “o período de defeso”- Período de repouso Biológico, de junho a setembro, onde é proibido pescar no “ Grande Rio”.

“A maioria das zonas húmidas da importância internacional coincidem com as zonas protegida. Estão sob a protecção da lei-quadro das áreas protegidas com regras e planos de gestão e os recursos que estão a ser explorados naqueles lugares de uma forma controlada para o bem-estar das comunidades locais, porque também a própria comunidade participa no controlo das regras e leis aplicadas”, enfatizou.

De acordo com Joãozinho, uma das regras é o “período de defeso” ao nível do setor das pescas.

“No setor de Cacheu, este período decorre de junho a setembro e todas as atividades de pesca são proibidas no Grande Rio e são determinadas as malhas, o que significa que é permitido apenas a pesca selectiva e isto traz benefícios e o progresso, porque, hoje, depois desse período, os pescadores enaltecem o plano porque conseguem ter sucesso com qualidade”, frisou.

Enfatizou, neste particular, que o plano de gestão e regras do Parque Natural do Rio Cacheu (PNRC) engloba s braços do Rio Cacheu, embora algumas regras do PNRC sejam tradicionais, nomeadamente a exploração de ostras, que tinha esse período de defeso, o PNRC incorporou essa regra tradicional nas regras legisladas na lei-quadro das áreas protegidas.

O ambientalista afirmou que as zonas húmidas do país têm uma pressão e que quase 70% da população vive colada aos recursos do mar.
“Se tomarmos em consideração a parte continental que também depende dos mesmos recursos, essa percentagem poderá subir para 80% e com aumento da população a nível nacional, significa que a pressão dessas zonas aumentará ainda mais”, disse, alertando que, se a pressão for maior, os danos serão drásticos com os impactos diretos no ambiente e na vida das pessoas que dependem, em grande parte, desses recursos.

Contudo, admitiu que os danos podem ser recuperados, através da utilização do ornamento de exploração, permitindo a exploração e ao mesmo tempo a restauração, ou seja, uma exploração durável, porque “exploremos o essencial nos lugares adequados, onde é possível explorar e isso contribuirá para a redução das ameaças e da pressão”.

Para Sá, o melhor mecanismo a adotar é reduzir a tendência, caso contrário o país poderá sofrer a rotura ecológica e o fenómeno acabará por afetar o homem e “isso não será bom” e fez questão de realçar o benefício da paisagem JPC para a Guiné-Bissau, tendo em conta a sua dimensão e os recursos que oferece, alegando que pretendem tornar aquela paisagem numa reserva da Biosfera.

“A escolha da paisagem JPC deve-se à génese e aos valores que os mangais têm para a natureza, para os homens e engloba a própria atração que a paisagem tem para as ONGs e as comunidades locais. Na Guiné-Bissau, se tirarmos as zonas húmidas deimportância internacional e tomarmos em conta como as zonas húmidas são importantes, poderemos perceber melhor que todas as zonas costeiras do país são zonas húmidas, tirando a região de Gabú”.

Finalmente, disse que o apoio do desenvolvimento ambiental no país depende da vontade política do governo.

“Embora o governo esteja a mostrar a vontade no setor e é bom que essa dinâmica continue, dando oportunidade para que os parceiros sintam a determinação em continuar a levar à frente o processo”, afirmou.

Por: Jacimira Segunda Sia
odemocratagb

Sem comentários:

Enviar um comentário