quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Guiné-Bissau: Fernando Vaz pede respeito a Portugal e a Cabo Verde

Fernando Vaz, porta-voz do Conselho Nacional de Transição (CNT). © Aliu Candé

O Conselho Nacional de Transição (CNT) da Guiné-Bissau pediu que cessem desde já as ingerências políticas provenientes de personalidades de Portugal e de Cabo Verde.

Desde o golpe de Estado na Guiné-Bissau, várias personalidades lusófonas e em particular de Portugal e de Cabo Verde têm criticado os acontecimentos em território guineense.

Em Portugal, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, considerou “bastante grave” a nova Constituição aprovada pelo Conselho Nacional de Transição que reforça os poderes do Presidente da República.

Isto enquanto a eurodeputada socialista, Marta Temido, condenou no Parlamento Europeu o Golpe de Estado: “A Guiné-Bissau vive uma ruptura grave do Estado de direito. Um golpe travou pela força um processo eleitoral legítimo, impôs a repressão e impediu os guineenses de conhecerem os resultados quando se pré-anunciava a derrota do Presidente Embaló. Condenamos o golpe. Exigimos a libertação imediata dos presos políticos, a reposição da ordem democrática e a divulgação transparente dos resultados. A União Europeia tem de agir, com sanções direccionadas, sem legitimar a Junta Militar. Não podemos falhar ao povo da Guiné-Bissau”.

Perante estas contínuas críticas, o porta-voz do Conselho Nacional de Transição (CNT), Fernando Vaz, criticou a postura de personalidades portuguesas e lembrou que a Guiné-Bissau é independente desde 1973.

“O Conselho Nacional de Transição - CNT - atento às insensatezes de algumas personalidades portuguesas, vem por este meio responder a certas declarações, em particular às deputadas Elza Pais e Marta Temido, que, de modo imbecil, para não dizer patético, promoveram uma narrativa neocolonial. Reafirmamos a soberania nacional da Guiné-Bissau. Condenamos veementemente intervenções e ingerências externas no processo político guineense, especialmente no que respeita à revisão constitucional. 

A Guiné-Bissau é dos guineenses. A Guiné-Bissau não é uma colónia portuguesa. 

A Guiné-Bissau desde 1973 é um país independente. Somos um país pequeno, mas um Estado como Portugal é um Estado, em pé de igualdade. Portanto, não admitiremos nenhuma falta de respeito de qualquer indivíduo que seja. 

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal (ndr: Paulo Rangel) que se preocupe com os problemas de Portugal, os problemas internos. Os problemas internos da Guiné-Bissau, os guineenses podem muito bem resolvê-los. Aconteceu um golpe de Estado na Guiné que eles condenam. 

O 25 de Abril aconteceu em Portugal, foi um golpe de Estado, e as mudanças que ocorreram foram positivas. Criou aquilo que é hoje o Estado português, o Estado democrático português. 

Aquilo que está a acontecer na Guiné é precisamente a mesma coisa. Portanto, há um golpe de Estado em que estamos a fazer as revisões das leis que levaram o país durante 50 anos, a um marasmo e a uma conflitualidade política muito grande. Essas revisões vão trazer a paz, a estabilidade e o convívio entre os guineenses. É isto que se pretende”.

O Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, também foi criticado na conferência de imprensa do Conselho Nacional de Transição.

Em declarações à imprensa, o chefe de Estado cabo-verdiano defendeu a necessidade de se criarem canais de diálogo político na Guiné-Bissau e destacou a urgência da libertação do líder da oposição, Domingos Simões Pereira.

José Maria Neves fez um apelo veemente à libertação de todos os detidos por motivos políticos, sublinhando que Domingos Simões Pereira continua preso sem culpa formada.

Na conferência de imprensa do Conselho Nacional de Transição, Fernando Vaz, porta-voz, afirmou que o Presidente de Cabo Verde deve se preocupar com os problemas dos cabo-verdianos e deixar de ser o advogado de Domingos Simões Pereira.

“O senhor Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, aparece como porta-voz do DSP (ndr: Domingos Simões Pereira), como advogado do DSP. Ele se quiser ser advogado e porta-voz do Domingos Simões Pereira, ele que dispa a capa de presidente de Cabo Verde. Ele tem muitos problemas em Cabo Verde para se preocupar. Portanto, agradecemos que não se imiscuam mais naquilo que diz respeito aos guineenses e só aos guineenses e à Guiné-Bissau. Nós estamos de braços abertos para receber e dialogar com todo o mundo, desde que seja na base do respeito, da igualdade e da consideração. A CPLP não é fiscalizadora da constitucionalidade na Guiné-Bissau. A CPLP se quiser vir passear até à Guiné, nós fazemos o convite”.

Recorde-se que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) suspendeu a Guiné-Bissau e entregou a presidência a Timor-Leste.

De relembrar que os militares tomaram o poder na Guiné-Bissau a 26 de Novembro de 2025, três dias depois das eleições gerais e um dia antes da divulgação dos resultados oficiais.

Os militares anunciaram que o período de transição seria por um ano e, a 21 de Janeiro, um decreto presidencial marcou as eleições legislativas e presidenciais na Guiné-Bissau a 6 de Dezembro.

Por: Marco Martins com RFI

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