Vídeo: Junior Gagigo
O Presidente da República de transição da Guiné-Bissau, Horta Inta-a, apelou hoje à união dos guineenses para se cumprir o “Programa Maior” de Amílcar Cabral, assassinado há 53 anos.
A Guiné-Bissau celebra hoje o feriado nacional do Dia dos Heróis Nacionais, em homenagem ao líder histórico da luta pela libertação, que morreu a 20 de janeiro de 1973.
O Presidente de transição assinalou a data com a deposição de coroas de flores no mausoléu da Amura, a base das Forças Armadas guineenses, e lembrou, numa declaração à imprensa, o pensamento de Amílcar Cabral.
Na declaração divulgada pela comunicação social local, Horta Inta-a apelou à união entre o povo guineense e os que escolheram a Guiné-Bissau para viver, para que seja possível viver em paz e cumprir o “Programa Maior”, depois de o “Programa Menor”, que foi a luta armada pela independência, ter sido alcançado.
As expressões são de Amílcar Cabral e o Presidente de transição da Guiné-Bissau disse acreditar que “muitos dos camaradas de Cabral não entendiam quando ele lhes falava que estavam a cumprir com o Programa Menor”.
“Questionavam-lhe dizendo: como estamos a cumprir com o Programa Menor se estamos a morrer [na guerra colonial]? Não sabiam eles que o desenvolvimento do país é mais difícil do que o processo que estavam a enfrentar. Nesse processo havia morte é verdade, mas o desenvolvimento é mais difícil”, especificou.
O general nomeado para Presidente de transição pelo Alto Comando Militar que tomou o poder a 26 de novembro de 2025 pediu que todos se unam para que seja possível “levar esta terra para a frente” e cumprir o desejado desenvolvimento do “Programa Maior” de Cabral.
Horta Inta-a disse aos jornalistas que o dia de hoje (20 de janeiro) “não é um dia de discurso açucarado [discurso de enganar o povo], nem é dia de festa”, mas “é dia de reflexão para todo o povo da Guiné, bem como para aqueles que escolherem esta pátria de Amílcar Cabral como a sua segunda pátria”.
“Peço a todo o povo da Guiné, seja onde estiver, seja qual a sua religião, católica, animista ou muçulmano, que vertamos a água para pedirmos paz nesta terra, porque aqui é a nossa terra, somos condenados a viver aqui”, disse.
“Peçamos para aqueles que têm maus espíritos, a cultura da violência, que Deus derrame àgua fria nos seus corações, que lhes tire essa maldade. A cultura da violência não nos vai levar a lado nenhum, pelo contrário só nos faz regredir”, acrescentou.
O Presidente de transição disse ainda que, “se Amílcar Cabral não se tivesse unido com os seus camaradas”, a Guiné-Bissau não seria o que é hoje, reconhecida “no mundo como um país”, e lembrou que o líder histórico “deixou tudo o que tinha, a vida que tinha para viver”, pela “causa justa” da independência do país de Portugal.
Os militares tomaram o poder há cerca de dois meses, na véspera da divulgação dos resultados das eleições gerais, presidenciais e legislativas, e o processo eleitoral foi interrompido sem dados oficiais sobre a votação.
O Presidente cessante e recandidato a um segundo mandato, Umaro Sissoco Embaló, foi deposto e saiu do país, enquanto o candidato da oposição, Fernando Dias, que reclamou vitória, terá procurado refúgio na Embaixada da Nigéria em Bissau.
No golpe de Estado, que vozes nacionais e internacionais consideraram ter sido uma encenação do Presidente cessante, foram detidos vários políticos, entre eles Domingos Simões Pereira, líder do histórico Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).
O líder e o partido foram excluídos das eleições pelo Supremo Tribunal de Justiça e decidiram apoiar a candidatura de Fernando Dias, presidente de uma das alas do Partido de Renovação Social (PRS), que se dividiu, com uma fação fiel a Dias e outra apoiante de Sissoco Embaló.
Os militares anunciaram que o período de transição seria por um ano e uma das primeiras iniciativas legislativas foi a revisão da Constituição, conferindo mais poderes ao Presidente da República.
A Guiné-Bissau foi suspensa de várias organizações internacionais que pedem a retoma da ordem constitucional e a libertação dos presos políticos, nomeadamente, a União Africana, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa”, que substituiu a Guiné-Bissau na presidência rotativa por Timor-Leste.
*** A delegação da agência Lusa na Guiné-Bissau está suspensa desde agosto após a expulsão pelo Governo dos representantes dos órgãos de comunicação social portugueses. A cobertura está a ser assegurada à distância ***













Sem comentários:
Enviar um comentário