terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ensaio clínico sobre vacina contra a Hepatite B à nascença gera polémica na Guiné-Bissau

Na Guiné-Bissau, deveria ter começado no início do ano um ensaio clínico, financiado pelos Estados Unidos, sobre o momento da vacinação contra a Hepatite B. AFP - ROBYN BECK

Um ensaio clínico financiado por entidades norte-americanas e fundações privadas para estudar o momento de administração da vacina contra a Hepatite B em recém-nascidos na Guiné-Bissau está a gerar forte controvérsia entre especialistas em saúde pública, ética médica e vacinação.

O estudo, liderado pelo Bandim Health Project, ligado à Universidade do Sul da Dinamarca, pretende acompanhar 14.000 recém-nascidos ao longo de cinco anos, comparando dois grupos: um que recebe a vacina contra a hepatite B nas primeiras 24 horas de vida e outro que segue a prática actual do país, recebendo a vacina apenas a partir das seis semanas de idade.

O ensaio é financiado pela Pershing Square Foundation, pela Bluebell Foundation e pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), num total de cerca de 1,6 milhões de dólares.

Actualmente, a Guiné-Bissau não administra a vacina contra a hepatite B à nascença. No entanto, o Governo decidiu adoptar a vacinação universal de recém-nascidos a partir de 2028, em linha com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo os investigadores da Bandim Health Project, esta transição cria uma “janela de oportunidade” para comparar a política actual com a futura política já decidida, mas ainda não implementada. O recrutamento termina quando a vacinação à nascença passar a fazer parte do programa nacional.

Durante o ensaio, todos as crianças recebem a vacina contra a hepatite B às 6, 10 e 14 semanas. Metade, 7.000, vão receber uma dose adicional à nascença.

De acordo com o site do Bandim Health Project, o ensaio não visa testar se a vacina previne a hepatite B, algo já amplamente demonstrado. O foco está nos chamados “efeitos não específicos” das vacinas, ou seja, possíveis impactos gerais na saúde para além da protecção contra a doença-alvo. O objectivo primário do estudo é a mortalidade geral e hospitalizações e os secundários incluem dermatite atópica e neurodesenvolvimento infantil.

O Bandim Health Project afirma que a vacina contra a hepatite B à nascença nunca foi avaliada em grande escala quanto aos seus efeitos globais na saúde através de um ensaio aleatório.

A iniciativa tem sido duramente criticada por vários especialistas. Para muitos, o principal problema é ético: a vacina contra a hepatite B é considerada segura, eficaz e potencialmente salvadora de vidas, especialmente em países com elevada prevalência da infecção.

A OMS recomenda desde 2009 que todas as crianças, em todos os países, recebam uma dose da vacina contra a hepatite B nas primeiras 24 horas após o nascimento, como forma de prevenir a transmissão de mãe para filho.

Na Guiné-Bissau, estima-se que até 18% da população esteja infectada e que cerca de 11% das crianças já estejam infectadas aos 18 meses.

Para críticos como o pediatra norte-americano Paul Offit, professor da Universidade da Pensilvânia, o ensaio equivale a “reter uma intervenção comprovadamente eficaz” num contexto de elevado risco, comparando-o mesmo ao estudo de Tuskegee, em que tratamento médico foi deliberadamente negado a afro-americanos com sífilis durante décadas.

O estudo é liderado por Christine Stabell Benn e Peter Aaby, figuras conhecidas pela investigação sobre efeitos não específicos das vacinas. Christine Stabell Benn é actualmente consultora do comité norte-americano que recentemente deixou de recomendar a vacinação universal contra a hepatite B à nascença nos EUA.

Em declarações a Simon Rozé, Magda Robalo, antiga ministra da Saúde da Guiné-Bissau, diz trata-se de um estudo problemático que levanta problemas éticos e cujos estudos não servirão para nada.

É um estudo problemático, controverso por diferentes razões: pelo facto de a Guiné-Bissau ser o único país no mundo que vai fazer este estudo; é um ensaio clínico que não vai trazer nada de novo para as políticas de saúde pública, nomeadamente em matéria de vacinas que são recomendadas para as crianças e é um estudo que, também, representa um problema do ponto de vista ético, porque incide sobre 14.000 crianças repartidos em dois grupos, dos quais um vai receber a vacina à nascença e o outro vai continuar com o protocolo actual.

Este estudo só vai trazer desconfiança no seio da população, que poderá evitar levar as suas crianças para serem vacinadas. (...)

Este estudo não tem lugar de ser na Guiné-Bissau e o estudo não vai resolver nenhum problema de saúde pública. Pelo contrário, vai contribuir para retardar a vacinação contra a Hepatite B à nascença, cuja utilização vai salvar a vida de muitas crianças e vai salvar também a vida de muitos adultos. Porque a prevenção à nascença contra a infecção por Hepatite B previne o cancro do fígado e vários outros efeitos negativos da infecção crónica por Hepatite B, que é uma doença altamente prevalente na Guiné-Bissau.

Entretanto, o Governo de transição na Guiné-Bissau adiou a introdução da vacina contra a Hepatite B nas crianças ao nascimento. Em comunicado, o Ministério da Saúde Pública informou o cancelamento “por motivos organizacionais e logísticos”, avançando que a introdução da vacina à nascença está agora prevista para 2028.

O documento assinado pelo novo ministro, comodoro Quinhin Nantote, esclarece ainda que, actualmente a vacinação contra a Hepatite B na Guiné-Bissau “está incluída no esquema da vacina pentavalente, aplicada às 6,10 e 14 semanas”.

O comunicado do ministério da Saúde Pública não esclarece a polémica suscitada com o anúncio do ensaios clínicos do Bandim Health Project.

rfi.fr/pt/

Sem comentários:

Enviar um comentário