Manifestação da diáspora guineense em Paris a favor da democracia em Maio de 2024 (Foto de arquivo). © IAIA BARRI DJASSI
Neste fim-de-semana, esteve em Bissau uma delegação da CEDEAO composta pelo Presidente da Comissão da CEDEAO, Omar Alieu Touray, pelo Presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, e pelo Presidente em exercício do bloco, o Chefe de Estado da Serra Leoa, Julius Maada Bio. Sobre o teor dos contactos com as autoridades militares guineenses, este último disse que as conversações tinham sido "construtivas" e que tinha "reiterado o apelo para uma transição breve, liderada por um Governo inclusivo".
Além disso, pouco mais se sabe, não tendo filtrado qualquer declaração sobre as conclusões resultantes desta missão, nem tão-pouco dos contactos que mantiveram tanto com Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC mantido em detenção desde o dia da desestabilização militar há quase dois meses ou com Fernando Dias, candidato presidencial que se encontra refugiado na embaixada da Nigéria em Bissau.
Esta tentativa de mediação da CEDEAO junto do poder militar guineense, acontece num contexto em que ele acaba de proibir qualquer comunicação pública sem autorização prévia e em que, por outro lado, acaba de libertar os responsáveis políticos que estavam detidos desde 26 de Novembro, com excepção de Domingos Simões Pereira.
Um dado que analisamos com Iaia Barri Djassi, membro da diáspora guineense ligado ao PAIGC radicado aqui em França, para quem o principal líder de oposição está a ser usado como moeda de troca nas negociações entre o poder militar e a comunidade internacional.
RFI: Como reage à recente libertação dos responsáveis políticos Octávio Lopes, Marciano Indi e Roberto Mbesba?
Iaia Barri Djassi: Acho que é muito bom. Isso é um bom sinal a libertação de alguns dos nossos camaradas que estiveram presos durante esse tempo todo. Mas é essencial, realmente, a libertação de todos os prisioneiros políticos e também o fim de perseguições políticas que estão a decorrer com alguns camaradas que infelizmente ainda estão escondidos. Porque não existe nenhuma necessidade, não existe nenhum crime que eles cometeram além de ter ganhado as eleições.
RFI: Como é que interpreta o facto desses responsáveis políticos terem sido libertados pouco antes da chegada da missão da CEDEAO ao país?
Iaia Barri Djassi: Pelas informações que nós temos, antes mesmo da vinda da CEDEAO para a Guiné-Bissau, a CEDEAO já tinha acordado juntamente com o Comando Militar a libertação de todos os prisioneiros políticos que estão sequestrados nesse momento. Até o engenheiro Domingos Simões Pereira também estava incluído nessa lista de pessoas que tinham que ser libertadas, mas decidiram, infelizmente, manter o engenheiro Domingos Pereira ainda preso, para utilizá-lo como moeda de troca nas negociações.
RFI: E precisamente, como é que explica que se opte por libertar todos os presos, exceptuando Domingos Simões Pereira?
Iaia Barri Djassi: É nada mais do que porque pelo que ele realmente representa, eles sabem que estão a ser rejeitado pelo povo, estão a ser rejeitado pela comunidade internacional e eles sabem muito bem do peso do Dr. Domingos Simões Pereira. Uma vez que o Dr. Domingos Pereira estiver em liberdade, ia ser mais complicado em negociações com organismos internacionais, uma vez que já não teriam uma pessoa para por em cima da mesa em termos de negociações, porque Domingos Pereira não está preso, está simplesmente sequestrado. Estamos a lidar com uma quadrilha, não é um nenhum organismo legítimo de Estado.
RFI: Entretanto, durante este fim-de-semana esteve a missão da CEDEAO na Guiné-Bissau. Quais são as suas expectativas relativamente a esta missão, sobre a qual pouco se sabe em termos de contactos?
Iaia Barri Djassi: Pelo que eu sei, tanto Fernando Dias e também Domingos Simões Pereira tiveram praticamente uma posição simultânea de que só podemos passar a negociar e a ter diálogo a partir do momento em que todo o mundo estiver em liberdade, em que cesse essa perseguição aos políticos que está a decorrer nesse momento. Aí podíamos passar a uma etapa já de negociações e de conversações para o bem-estar e para que possamos sair dessa situação. Temos muita esperança neles, mas ao mesmo tempo, sabemos que para sairmos dessa situação, vai passar realmente por nós mesmos, os cidadãos e filhos da Guiné-Bissau.
RFI: As poucas palavras que saíram destes contactos deste fim-de-semana, vieram do Presidente em exercício da CEDEAO, que exigiu uma transição rápida com um governo inclusivo e que sejam cumpridos todos os preceitos definidos na última cimeira extraordinária da CEDEAO. Julga que, tendo em conta tudo o que tem acontecido nestes últimos dias, é um objectivo realista?
Iaia Barri Djassi: Sim, acredito que realmente é um objectivo realista. Não estamos a ver que realmente esse actual regime no poder consiga manter-se no poder porque uma vez que todos os políticos estiverem libertos e que acabe essa perseguição que está em curso nesse exacto momento, eles colocaram Domingos Pereira, sequestraram-no mais para poder atrasar as negociações e utilizá-lo como moeda de troca. E uma vez que passarmos dessa etapa e todos os líderes políticos forem libertos e poderem exercer a política normalmente, claramente que a situação vai mudar porque esse regime está a ser rejeitado pelo povo guineense e eles sabem disso. Isso vê-se no nervosismo e vê-se na comunicação e vê-se nas falhas que eles têm estado a cometer, que mostra uma precipitação e falta de preparação para dirigir o país.
RFI: Como é que interpreta os últimos gestos políticos da Junta no poder? Com, por um lado, a libertação desses responsáveis políticos, mas, por outro, a proibição de qualquer comunicação pública por parte de movimentos da sociedade civil ou movimentos políticos?
Iaia Barri Djassi: Isso para mim, não passa de falta de preparação deles. E também mostra, mais uma vez, a fragilidade deles lidarem com a democracia e com liberdade de expressão. E nós sabemos que temos vários organismos a nível internacional que estão a colaborar connosco. Estamos colectivamente a trabalhar de uma forma serena para que com tudo isto, possamos sair sem nenhum incidente. Estamos a lidar com pessoas impreparadas e não sabemos do que são capazes.
RFI: Como é que a diáspora age relativamente à Guiné-Bissau neste momento?
Iaia Barri Djassi: A diáspora está unida e está cada vez mais determinada a intensificar essa luta. E pelas informações que eu tenho, nas semanas que vêm, vamos intensificar a luta e vamos ter manifestações de toda a diáspora. Vamos também, dessa vez, ser acompanhado por organismos internacionais. Isso mostra, mais uma vez, de que esse regime está a ficar cada vez mais isolado. Intensificamos essas pressões que vão vir a nível de da diáspora e do organismos internacionais. Acredito serenamente de que vamos sair dessa situação porque estamos a lidar com pessoas impreparadas que não têm capacidade de continuar a sequestrar o Estado da Guiné-Bissau.
RFI: Tem alguma data ou algum evento já em mente de que possa falar?
Iaia Barri Djassi: Estamos nos preparativos de uma manifestação da dimensão da que fizemos em 2020 em Bruxelas. E também temos outra pretensão de fazer manifestações aqui em Paris, em Lisboa e no Brasil também. Outras delegações estão com a mesma pretensão em Senegal, em Angola, nos Estados Unidos. Temos essas agendas.
Por:Liliana Henriques
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