A selecção nacional de São Tomé e Príncipe inicia esta sexta-feira, 27 de Março, a luta pela qualificação para a CAN 2027, frente à Etiópia, num duelo que reabre memórias antigas e alimenta novas ambições. O seleccionador Ricardo Monsanto acredita numa geração em crescimento, mais competitiva, capaz de contrariar o favoritismo adversário e dar mais um passo na afirmação internacional do futebol são-tomense.
Onze anos depois de um duelo que terminou em desilusão, São Tomé e Príncipe volta a cruzar-se com a Etiópia numa pré-eliminatória, agora com outros protagonistas, outro contexto e, sobretudo, outra ambição.
“Temos um histórico com a Etiópia. Há 11 anos houve uma pré-eliminatória em que São Tomé e Príncipe ganhou 1-0 em casa, mas depois perdeu 3-0 fora. Temos aqui um bocadinho essas contas antigas para ajustar”, recorda o seleccionador Ricardo Monsanto, consciente de que o passado serve mais de referência do que de destino.
O adversário, admite, evoluiu: “Esta geração da Etiópia é mais forte ainda do que essa geração era.” Mas a convicção mantém-se firme: “Esta nova geração de São Tomé tem sido preparada… é muito mais forte do que essa geração de há 11 anos.”
Entre memória e expectativa, o seleccionador sustenta a confiança em sinais recentes. Resultados que, mais do que números, são indicadores de trajecto: “Os jogos contra a Libéria, contra a Guiné Equatorial e a vitória frente ao Malawi dão-nos toda a esperança de crescimento desta geração.” Um triunfo simbólico, frente a uma selecção “70 lugares à nossa frente no ranking da FIFA”.
Identidade da equipa constrói-se entre geografias
Nascida maioritariamente em São Tomé e Príncipe, desenvolve-se hoje fora das suas fronteiras. “A maior parte dos jogadores nasceu no arquipélago, mas há uma grande migração para Portugal”, explica Ricardo Monsanto.
O resultado é uma selecção dispersa, mas interligada: “Temos 13 jogadores que jogam em Portugal, três que ainda jogam em São Tomé e Príncipe. Outros no Reino Unido, Espanha, Finlândia, Azerbaijão, Itália e Alemanha.” Um retrato que espelha o futebol contemporâneo: “Faz parte do futebol globalizado.”
Essa diáspora não é apenas um dado estatístico é um factor competitivo. “Nos campeonatos europeus os jogadores têm outro tipo de campos. O jogo joga-se com muito mais intensidade, velocidade e riqueza táctica”, sublinha. Uma evolução que contrasta com as limitações estruturais no país: “Os campos de barro tornam o jogo muito lento, apesar de físico.”
É nessa transferência de experiência que Ricardo Monsanto vê um dos pilares do crescimento: “Essa evolução e essa transferência de capacidades faz toda a diferença.”
Se o talento se molda ao longo do tempo, a selecção de São Tomé e Príncipe vive da urgência. “Temos um estágio no total de 10 dias para resolver dois jogos com quatro treinos”, descreve o seleccionador, evidenciando as limitações inerentes às equipas nacionais.
Daí o reconhecimento explícito ao trabalho invisível: “Temos que agradecer aquilo que os treinadores dos clubes fazem, o momento de forma com que eles se apresentam na selecção depende disso.” Num contexto de escassa competição internacional , cada encontro ganha peso acrescido. E cada jogo é decisivo.
Desde 2019 ligado à selecção, primeiro como adjunto, depois como seleccionador, Ricardo Monsanto vê na continuidade um activo estratégico. “Durante quatro anos fui o seleccionador da diáspora e muita coisa aconteceu.”
A transformação é visível nos números e nos perfis. “Na primeira convocatória tínhamos 15 jogadores internos e oito da diáspora. Hoje isso mudou.” E mudou também a idade e o potencial: “Temos hoje uma selecção muito mais jovem, mas também muito mais perto daquilo que queremos que seja o futuro.”
Nomes como Ronaldo Lumungo ou Sérgio Malé simbolizam essa renovação, não apenas geracional, mas também cultural e competitiva.
Enquanto Angola, Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau entraram directamente nas fases principais de qualificação, São Tomé e Príncipe continua a construir o seu caminho passo a passo. “O nosso objectivo é juntarmo-nos a essas selecções. Continuarmos nesta senda e disputarmos qualificações”, afirma Ricardo Monsanto.
Mais do que presença, ambiciona-se pertença: “Deixem-nos sonhar com um dia podermos seguir o exemplo de Cabo Verde e estar numa fase final de uma grande competição.”
Para já, o primeiro passo joga-se em dois actos esta sexta-feira e para a semana, no dia 31 de Março. São Tomé e Príncipe entra em campo com uma certeza: já não é a mesma equipa de há 11 anos e talvez seja isso que mais conta.
Por:Lígia ANJOS

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