quinta-feira, 26 de março de 2026

ONU declara tráfico de escravos africanos “o crime mais grave contra a humanidade”

No discurso, na Assembleia Geral da ONU, o Presidente ganês, John Dramani Mahama, falou em momento "histórico" e apelou à "verdade" e à "justiça restaurativa". AP

As Nações Unidas adoptaram esta quarta-feira, 25 de Março, uma resolução não vinculativa que classifica o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o “crime mais grave contra a humanidade”. O texto, liderado pelo Gana, recebeu 123 votos a favor, com os Estados Unidos, Israel e a Argentina a votarem contra, e alguns países da União Europeia e o Reino Unido a optarem pela abstenção.

Liderada pelo Gana, a resolução pretende reconhecer a dimensão, a duração e as consequências do tráfico transatlântico de escravos, marcado por mais de 300 anos de exploração e violência.

No seu discurso na Assembleia Geral da ONU, o Presidente ganês, John Dramani Mahama, falou de um momento “histórico” e apelou à “verdade” e à “justiça restaurativa”.

A resolução apela aos Estados para que emitam pedidos formais de desculpas, considerem compensações para os descendentes das vítimas e reforcem as políticas antirracistas.

O texto não vinculativo recebeu 123 votos a favor, com os Estados Unidos, Israel e a Argentina a votarem contra, e alguns países da União Europeia e o Reino Unido a optarem pela abstenção.

Em entrevista à RFI, a historiadora moçambicana Benigna Zimba afirma que a votação da ONU tem uma “dimensão incalculável”, sublinhando que esta decisão de reconhecer o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o “crime mais grave contra a humanidade” dá a oportunidade de olhar e contextualizar esta prática, que passa a ter um enquadramento jurídico mais agravado.

No entanto, a resolução reacendeu profundas divisões. Os países europeus e o Reino Unido abstiveram-se, alertando para uma “competição” entre tragédias históricas.

Os Estados Unidos votaram contra, considerando a resolução “altamente problemática” e recusando reconhecer o direito a reparações por actos que não eram ilegais à época.

Esta posição foi contestada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa, que reiterou que “nenhuma outra atrocidade foi tão sistémica, tão duradoura e com consequências tão permanentes”.

Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, denunciou as “feridas profundas” deixadas por esta “ordem mundial perversa”, apelando à “verdade, justiça e reparações”.

rfi.fr/pt/

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