quarta-feira, 4 de março de 2026

Campanha de cajú: FALTA DE CRÉDITO LEVA PRODUTORES DE BIGENE A DEPENDER DO SENEGAL


Os agricultores do setor de Bigene, na região de Cacheu, norte da Guiné-Bissau, manifestam apreensão quanto ao sucesso da nova safra da castanha de cajú. Diante das incertezas, muitos produtores afirmam estar a olhar para o Senegal como alternativa para o escoamento da produção. Ainda assim, apelam à potencialização do setor agrícola, sobretudo ao apoio direto aos produtores de cajú, um dos principais produtos estratégicos de exportação do país e um dos pilares da economia nacional.

A preocupação foi expressa em entrevista ao jornal O Democrata por Furna Biega, agricultor da localidade, situada na linha fronteiriça com a República do Senegal. Segundo ele, a falta de apoio ao setor tem provocado sérias dificuldades económicas aos produtores, que recorrem a soluções externas para garantir a continuidade das atividades agrícolas.

Furna Biega denunciou a ausência de linhas de crédito acessíveis nos bancos comerciais, o que obriga os agricultores de Bigene a recorrerem a comerciantes senegaleses para obter empréstimos destinados ao pagamento da mão de obra. De acordo com o produtor, esses empréstimos acarretam custos elevados no momento do reembolso, enfraquecendo ainda mais a economia nacional.

“O reembolso é feito de acordo com os termos estabelecidos entre o agricultor e o comerciante. Neste período de limpeza dos pomares de cajú, enfrentamos muitas dificuldades e muitos de nós não conseguem manter stock após o fim da safra. Isso coloca-nos numa situação de endividamento constante. Os prejuízos são enormes”, lamentou.

O agricultor revelou ainda que, após a contração de empréstimos durante a campanha, os produtores são frequentemente “invadidos” por comerciantes do país vizinho nas zonas fronteiriças. Por essa razão, apelou ao governo de transição para que potencialize o setor agrícola e proteja a castanha de cajú enquanto produto estratégico de exportação da Guiné-Bissau.

“GOVERNO DEVE POTENCIALIZAR A AGRICULTURA E PROTEGER O CAJÚ COMO O NOSSO PRODUTO ESTRATÉGICO”

Furna Biega criticou a falta de interesse do Estado e dos parceiros de desenvolvimento na criação de mecanismos de facilitação de crédito bancário para agricultores e cooperativas agrícolas, capazes de viabilizar as atividades produtivas no país.

“É extremamente preocupante para um país que quer desenvolver-se. A Guiné-Bissau tem potencialidades e uma delas é a agricultura. As autoridades devem apostar seriamente no setor”, defendeu.

O produtor alertou ainda que, caso o governo venha a anunciar o preço mínimo da castanha de cajú para o presente ano agrícola, este deverá ser sustentável e beneficiar todas as partes envolvidas.

Segundo ele, o funcionamento da campanha de comercialização da castanha de cajú revela a fragilidade e a falta de posicionamento das autoridades face aos países vizinhos.

“Hoje fazemos do Senegal uma referência. Parece uma fraqueza crónica das nossas autoridades deixar tudo nas mãos de outros países. Temos território e plantações, mas continuamos dependentes. Se as coisas funcionassem bem, o Senegal seria apenas um espaço de passeio, não um mercado de sustento”, afirmou.

Furna Biega sublinhou que os agricultores de Bigene não desejam o contrabando da castanha de cajú nem de outros produtos pelas fronteiras, salientando que quanto mais navios atracarem no Porto de Bissau, maiores serão os benefícios para o país e para a população.

AGRICULTOR DENUNCIA COBRANÇAS ILÍCITAS NAS FRONTEIRAS
O agricultor denunciou ainda que os produtores são vítimas frequentes de cobranças ilícitas nas fronteiras, sobretudo durante a campanha de comercialização do cajú. Por isso, apelou ao Estado para reforçar o controlo fronteiriço e apoiar os agricultores, pelo menos neste ano agrícola, para garantir uma campanha sustentável.

“O medo leva a erros. Não deve ser um obstáculo às nossas atividades. Temos de denunciar as dificuldades que vivemos na fronteira”, afirmou.

Segundo Furna Biega, após a campanha de cajú, o arroz adquirido em grandes quantidades para sustentar as famílias durante a época das chuvas também é alvo de cobranças ilícitas, situação que, segundo ele, ocorre sobretudo durante a campanha do cajú.

“Por que razão essas cobranças só acontecem na campanha de cajú? Esse comportamento é preocupante e o governo deve intervir”, denunciou.

O agricultor afirmou ainda que, apesar de o mercado senegalês servir como alternativa para o escoamento da produção, essa dependência gera frustração entre os produtores, que gostariam de contar com mecanismos internos eficazes.

Questionado sobre a relação dos agricultores com a Associação Nacional dos Agricultores da Guiné-Bissau (ANAG), Furna Biega criticou a nomeação de dirigentes que, segundo ele, não conhecem o setor agrícola.

“Não se contrata um mecânico sem experiência para reparar um carro. O mesmo acontece com o setor agrícola”, ironizou.

O agricultor lamentou que, na região de Cacheu, poucos produtores de cajú tenham condições de vida dignas, apesar de serem responsáveis pela produção que abastece os armazéns em Bissau. Criticou ainda a atuação recente do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, sobretudo na distribuição de sementes, alegando que muitos agricultores foram excluídos por falta de recenseamento adequado.

Para Furna Biega, a escolha de pessoas sem ligação ao setor agrícola para cargos de responsabilidade compromete o desenvolvimento do país.

“Precisamos de dirigentes que conheçam o setor, que já tenham produzido cajú. Representar camponeses sem experiência é lamentável e só afunda o país”, concluiu.

Por: Filomeno Sambú
odemocratagb

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