Cirurgião marca a diferença na Guiné-Bissau… crianças e mulheres “devem estar em primeiro lugar”
Natural de Mansôa, Guiné-Bissau, Dionísio Cumbá frequentou o secundário até ao 11º ano na capital Guineense, que na altura se designava de maturidade científica em 1989. Esteve ligado a uma missão da Igreja Católica Italiana cuja liderança foi feita pelo Padre Italiano da missão e Dionísio ficou a trabalhar com ele dois ano naquele país dos PALOP, na altura não havia universidade na Guiné-Bissau e para poder prosseguir os estudos académicos era necessário emigrar.
A solução para continuar a estudar estava no estrangeiro. Dionísio esteve a trabalhar com o missionário Italiano que o ajudou a conseguir uma bolsa de estudos para a Itália, bem como fez o mesmo a outros jovens naquela situação. Foi para Itália em 1991 com intenção de fazer estudos em medicina.
Quando chegou a Itália, a disponibilidade para continuar a fazer medicina não deu certo, porque a família que o iam apoiar tiveram problemas para poder custear os estudos, mas para ficar mais próximo do campo médico, fez o curso de enfermagem, que teve inicio em 1991 e terminou em 1994.
Nessa altura houve uma oportunidade para poder entrar em medicina. Tentou entrar com 11º ano que tinha obtido na Guiné, mas não podia, pois tinha que completar o 12º pois sistema de ensino que era totalmente diferente da sua terra natal.
Optou por vir em Portugal, em 1994 mais concretamente para Lisboa e encontrou uma vaga no Liceu Vitorino Nemézio, na capital, tendo concluído lá o 12º ano. Quando terminou o secundário em Portugal, regressou novamente para Itália e ingressou em Medicina, em Pádua, entrou em 1997 e terminou a licenciatura em 2004. Em 2005 iniciou a especialidade em cirurgia pediátrica que terminou em 2010.
Nesse período queria ir para Londres trabalhar, até já tinha um contrato, mas uma escapadela de férias à Guiné e com o terminus das mesmas, descobriu que não havia nenhum cirurgião pediátrico e um sistema sanitário muito degradado e pôs mãos à obra e tentou através dos seus conhecimentos e contactos, quer na Guiné e em Portugal, arranjar melhores condições hospitalares e tentou melhorá-lo.
Resolveu renunciar a transferência para Londres. No período de férias na sua terra natal, viu uma criança que nasceu com imperfuração anal, e esteve 15 dias sem evacuar. O abdómen estava muito cheio e foi aí que “descobri que não havia condições e ninguém que pudesse tratar daquela criança”, revela o médico.
Conseguiu naquele dia fazer uma colostomia, sem condições, mas como a força em ajudar a criança fez a cirurgia, numa “sala operatória” que não tinha sequer energia elétrica e foi com a luz do telemóvel que iluminou a operação tendo sido também feita sem anestesista, pois só havia um enfermeiro que não tinha capacidade para fazer entubação e foi operada apenas com gás e foi um êxito.
Depois regressou a Itália, mas começou a alimentar a ideia de voltar a Guiné e decidiu, depois de 3 meses que esteve lá, regressar às origens “peguei de novo esta criança e fomos construir todo o ânus da criança.” De lá para cá, já passaram 15 anos e esta criança, que agora é um jovem, faz a sua vida normal, sem problemas.
Outros desafios apareceram e Dionísio continuo a cuidar e tratar as crianças com
várias patologias. Vieram muitas crianças com estas patologias e estando em Bissau conseguiu organizar todo um serviço de cirurgia pediátrica no hospital de Bor, que foi construído pelo missionário Italiano que o tinha levado para a Itália estudar.
Esteve na Guiné a trabalhar no hospital pediátrico com o serviço de cirurgia de 2000 até 2023, esteve muitos anos a organizar várias missões médicas, de Itália, Espanha e também de Portugal, do Porto, de onde foram muitas equipas de cirurgia pediátrica do Hospital de São João e conseguiram operar muitas crianças em condições “complicadas” porque não havia serviços de terapia intensiva e há patologias nestas crianças muito complexas e tiveram que levar anestesistas com experiência da Europa.
“Conseguimos formar um anestesista e alguns médicos transmitir conhecimentos e dar formação e criar um serviço de cirurgia pediátrica no hospital de Bor. Durante o período do Covid houve muitas dificuldades porque tudo estava parado. O médico Dionísio era um dos coordenadores do COVID da Guiné, não fez muitas cirurgias naquele período e muitas crianças morreram com malformações e até hoje continuam a morrer porque há certas malformações que conseguimos tratar, outras
não.” Salienta.
Há muitas crianças com várias anomalias, mas não há condições, o hospital não consegue dar resposta. Mas como há sempre uma luz ao fundo do túnel e apesar das adversidades conseguiram fazer muitas cirurgias e não há mãos a medir, as necessidades do Hospital são muitas.
Na fase final do Covid, foi convidado pelo governo para fazer parte deste como Ministro da Saúde. Desempenhou esta função até 2023 quando terminou a sua missão e regressou a Itália, estando a trabalhar em Milão, já lá vão dois anos em Itália, mas o contrato acaba este mês (fevereiro) “e a minha próxima etapa vai ser em Braga.” Revela o médico Dionísio Cumbá.
A ida para Braga
O cirurgião concorreu a uma vaga e foi selecionado. Começa esta nova etapa da sua vida em Bracara Augusta no dia 1 de março de 2026, “vou para iniciar um percurso de contrato de trabalho a tempo indeterminado e também pegar este projeto da Guiné-Bissau, fazendo um acordo com o hospital de Braga para ver se conseguimos levar também os técnicos para a Guiné e eventualmente trazer crianças que não vamos poder tratar lá por falta de condições, tratar e depois levar novamente para a Guiné,” salienta o médico.
Vão reforçar o laboratório de análises clínicas do Doutor Pimenta, que apoiou e fizeram vários projetos em conjunto na Guiné e agora com a sua filha Manuela, está a dar continuidade e dar seguimento ao projeto do pai e “vamos ver como é que podemos reforçar ainda mais este projeto, sobretudo de laboratório para as grávidas nas aldeias.” Menciona o médico.
Ainda está sob os auspícios da OMS ou já se desligou?
Segundo o médico, continua a colaborar mas mais à distância, quando era ministro tinha uma maior proximidade, mas estando longe, solicitam um apoio, na ajuda em África, mais concretamente na Guiné-Bissau. E essa ligação às Nações Unidas, mais concretamente à OMS, foi a partir do período do COVID desde 2020, mas antes estava a colaborar com os Médico sem Fronteiras, no Hospital Nacional Simão Mendes e também em parceria com a OMS. Desde 2018, quando era Presidente do Instituto Nacional de Saúde Pública, tinha mais contactos com a Organização Mundial da Saúde, mas ainda vai fazendo alguns trabalhos no âmbito da organização.
Uma Mensagem
A mensagem que quer deixar é às Nações Unidas, OMS ou aos governantes algumas palavras: “que haja uma maior intervenção na saúde e mais cuidado nas crianças e nas Mulheres, que são as que enfrentam mais debilidades.”
Há um provérbio em África que diz: “quando alguém lava as costas também tem que lavar a barriga”. Quando Dionísio fazia parte de um governo viu o quão difícil era em transmitir aos governantes sobre a necessidade de criar condições para a saúde da população na Guiné-Bissau.
“Foi uma luta que fiz na Guiné no contexto do Covid onde tudo estava parado” e ninguém podia ir tratar, mesmo os que tinham dinheiro na Guiné, normalmente iam à Europa tratar, mas naquele período ninguém conseguia viajar.
Como Ministro fez um levantamento cabal de todo o território nacional. Sobre as infraestruturas “e vimos quais eram as necessidades, sobretudo nos cuidados primários para as grávidas e crianças.”
Apresentou todos os dados e pediu ao governo que era necessário dar prioridade à saúde em vez de dar destaque a outras áreas, vincou sobre a relevância e prioridade à saúde e educação, mas no caso da Guiné, acontece o contrário. Fez esforços quer ao nível Ministerial e Presidencial, mas não houve andamento, pediu-lhes para irem aos locais e verificarem, mas foi em vão.
É o Governo que tem que orientar todas as ações que são feitas pelas Nações Unidas e a OMS, estes organismos apoiam o país. Apesar da Guiné-Bissau ser um país com muita estabilidade, há sempre uma dificuldade de continuidade dos projetos.
Neste momento a situação política que se vive no país, há um bloqueio ao nível das Nações Unidas, OMS e do Banco Mundial. “O que eu gostaria de pedir a estes organismos internacionais é que fechem os olhos, porque quem sofre com tudo é a população. Quando há situações de crise têm que demonstrar mais resiliência no sentido de poderem apoiar sobretudo os mais fracos, as grávidas e as crianças, que nas aldeias não têm minimamente condições de assistência sanitária. Este apelo que deixo ao governo e também para os sistema das Nações Unidas é que apoiem o país.” Apela e finaliza o Cirurgião, Dionísio Cumbá.
Lígia Mourão
jornal das comunidades

















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