sexta-feira, 11 de setembro de 2015

«CRÓNICAS DE BISSAU» "ELE E ELA", A. VERA CRUZ


Eram três horas quando os dois chegaram, numa madrugada aflita mas serena. Ele vinha com o seu carro branco 4x4, chapa amarela, património de Estado. Ela de táxi, Mercedes Benz, modelo L 190, azul e branco.

Cruzaram-se na porta da pediatria do Hospital Nacional, os olhares beijaram-se ao longe na sala de espera antes de entrarem no consultório médico. Ele tinha uma menina de dois anos e ela um menino de três, ambos estavam impacientes, as crianças tinham-lhes pregado um susto, embora fossem coisas da vida… Se elas não pregassem sustos, a vida ocupar-se-ia de nos presentear com outras surpresas desagradáveis. 

Os dois ficaram internados numa sala, quem diria, na mesma sala, camas separadas por uma outra, para desprender os olhares inquietantes, que envolviam os sentimentos inexplicáveis dos dois pais que tinham ido ali parar pelo mesmo motivo, filhos com vómitos persistentes desde quando a noite começara a crescer na cidade, Bissau, e a lua a subir ao céu como se fosse um macaco de Cantanhez.

Passaram-se dois dias, a atração teimosa que nenhum dos dois sabia ao certo explicar, crescia. Melhor dizendo, fingiam não perceber o que lhes corria descontroladamente nas veias da paixão, porque os seus olhos brilhavam comunicando o que o coração falava intensamente sem usar uma palavra sequer. Quando a cama do meio ficava vazia, comunicavam-se telepaticamente e os seus olhares cruzavam-se timidamente. E os filhos? Os filhos, desde que chegaram aquele hospital, moribundos nas suas camas, presos com cateteres, não apresentavam sinais visíveis de recuperação.

O pai. O pai penetrado no seu monólogo mental, alimentava a sua imaginação "que corpo lindo ela tem, dá vontade de comer essa carne toda, oh mãe minha! Essa carne, devorar essa carne toda, ir até ao fundo, abrir a mata com o meu pau e entrar bem fundo, ai Deus!". Ele fechava os olhos para deliciar-se com a sua imaginação, que era gratuita. Ele era casado, a sua esposa não podia ficar internada com a filha, porque tinha um outro bebé, que acabara de nascer há duas semanas, mas ele necessitava de expulsar o líquido que estava demasiado preso nas suas calças.

A mãe. Sim, a mãe. Ela queria apalpar aquele corpo que para ela era um desenho perfeito “os músculos, fogo! Imagina toda essa força a agarrar o meu corpinho, a entrar, entrar, entrar cada vez com mais força, com maior intensidade, acompanhado com palmadinhas no rabo, ai, ai, ai". Arregalava os seus olhos e parecia que queria mesma agredir e violar o pai da menina, mas o seu grande medo era o casamento, se não fosse o seu casamento cometeria loucuras naquele hospital. Ela era casada, o marido vivia no estrangeiro, compreendia a carência que tinha de um corpo rijo dentro do seu corpo mole.

No compasso do desejo e da atração física, que envolvia os olhares embaciados de tanto brilhar sem concretizar a vontade de comer, comer a carne, devorar e matar a curiosidade e a sede também, ele resolveu ir à casa de banho, queria que ela viesse. Ela foi. A comunicação telepática entre ambos era inquebrável, tudo isto seria força da paixão ou do desejo? Foi exatamente ali que romperam o silêncio falante, que impunha os olhos a falar. Num tom embaraçoso, ele disse:
- O seu nome é...
- Não precisas dizer nada, eu percebi tudo! E tenho também a mesma vontade!
E começaram a expulsar as suas roupas... Caíram nos braços um do outro e as suas bocas trancadas soltavam gemidos soltos que falavam mantenhas aos que acabavam de chegar à casa de banho. Duas mulheres, uma delas gritou – era a esposa dele que vinha com amiga visitar a sua filha, que estava moribunda na cama:
- Mas o que é isto?!

- Isto é tchai inesperada, amiga!

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