segunda-feira, 16 de março de 2026

Iniciativa de Tarifa Zero da China para África: ESPECIALISTA DEFENDE INVESTIMENTO PARA A TRANSFORMAÇÃO E INDUSTRIALIZAÇÃO DA ECONOMIA GUINEENSE

O economista guineense Afonso Gomes afirmou que a iniciativa de tarifa zero para a exportação de produtos africanos para a China, lançada recentemente, pode trazer benefícios económicos à Guiné‑Bissau apenas se o país investir em áreas estruturantes e produtivas da sua economia. Defendeu ainda que qualquer política comercial só será viável se o país avançar para a modernização, transformação e industrialização da sua base económica.

Em entrevista ao jornal O Democrata, Afonso Gomes sublinhou que setores como a formação profissional e a capacitação técnica e tecnológica são fundamentais para a transformação dos setores agrícola e piscatório, permitindo a geração de produtos exportáveis com valor acrescentado. Apontou igualmente a necessidade de investir em infraestruturas económicas, de modo a gerar receitas que possibilitem o desenvolvimento de áreas de interesse para a China, como a mineração (bauxita) e a indústria pesada.

O especialista em assuntos económicos informou que a Guiné‑Bissau exporta atualmente cinco principais grupos de produtos, nomeadamente:
  • produtos agrícolas (96,0%),
  • produtos alimentares (2,7%),
  • máquinas e aparelhos (0,7%),
  • metais comuns (0,4%) e
  • instrumentos de ótica e de precisão (0,1%).
“É imperativo maximizar as oportunidades oferecidas pela iniciativa chinesa”

Segundo Afonso Gomes, dados mais recentes de 2025 indicam que os principais destinos das exportações guineenses são: Índia, principal mercado, absorvendo entre 30,3% e 90% da castanha de caju, seguida da China (17,1%), Singapura (8,7%), Vietname (5,6%), Emirados Árabes Unidos (5,3%), Países Baixos (4,4%) e Hong Kong (3,7%).

Apesar de a Guiné‑Bissau constar na lista de países exportadores, o economista considerou que os valores são insignificantes e não permitem antever impactos relevantes decorrentes da política de tarifa zero proposta pela China.

“A China não figura entre os principais destinos das nossas exportações. Assim, se as condições atuais se mantiverem, a tarifa zero para os países africanos não terá qualquer impacto significativo na nossa economia. Além disso, se os países africanos aplicarem o princípio da reciprocidade à China, a Guiné‑Bissau poderá sofrer perdas importantes, uma vez que importa da China alguns produtos, ainda que em volumes modestos, que são relevantes e poderão agravar a balança comercial, já estruturalmente deficitária”, advertiu.

Destacou ainda que o grupo de produtos mais relevante é o dos produtos agrícolas, com especial destaque para a castanha de caju, que representa cerca de 90% das exportações, sendo 97% absorvidas por um único país: a Índia.

Questionado sobre a forma como a Guiné‑Bissau poderá estruturar as suas políticas comerciais para maximizar as oportunidades oferecidas pela iniciativa chinesa, Afonso Gomes reiterou que nenhuma política comercial será eficaz sem a modernização, transformação e industrialização da economia nacional.

Segundo o economista, ao cumprir essas condições, o país estará apto a oferecer produtos com valor acrescentado, capazes de despertar interesse comercial não apenas da China, mas também de outros parceiros económicos.

Defendeu, por isso, que é imperativo maximizar as oportunidades oferecidas pela iniciativa chinesa, desenvolvendo políticas comerciais que incentivem a exportação de produtos locais.

“É de extrema importância maximizar as oportunidades oferecidas pela iniciativa chinesa. A Guiné‑Bissau deve desenvolver políticas comerciais que incentivem a exportação de produtos locais, investir em infraestruturas de transporte e logística e fortalecer a capacidade institucional e regulatória”, reforçou.

Afonso Gomes reconheceu que o país dispõe de “imenso potencial” em vários setores da economia.

“Se tivesse de indicar áreas prioritárias, apontaria produtos de fácil transformação, que não exigem elevados custos financeiros e que são exportáveis, como a castanha de caju, o amendoim, o coco, o peixe e os frutos do mar, bem como produtos agrícolas orgânicos”, afirmou.

Segundo o economista, os setores com maior potencial para beneficiar da exportação para a China incluem a agricultura, a pesca, a mineração (fosfato e bauxita) e o turismo.

Relativamente às estratégias para garantir a qualidade e competitividade dos produtos guineenses no mercado chinês, Afonso Gomes considerou que é “intelectualmente impossível” definir uma estratégia única e absoluta. Ainda assim, apresentou algumas orientações gerais.

“Para garantir a qualidade e a competitividade dos produtos guineenses no mercado chinês, é fundamental transformar e acrescentar valor, respeitar os padrões de qualidade e segurança alimentar, investir em tecnologia e infraestruturas de produção, promover a certificação de produtos e desenvolver capacidades de marketing e comercialização”, explicou.

Defendeu igualmente a criação de uma associação empresarial sino‑guineense, a promoção da participação de empresários nacionais em seminários temáticos em cooperação com a China, bem como a implementação de programas de formação em língua e cultura chinesa, e vice‑versa.

Instado a pronunciar‑se sobre as parcerias estratégicas necessárias para facilitar o acesso da Guiné‑Bissau ao mercado chinês, Afonso Gomes indicou como fundamentais as parcerias com empresas chinesas para investimento e transferência de tecnologia, bem como a cooperação com organizações internacionais, nomeadamente a Organização Mundial do Comércio (OMC), a União Africana (UA) e a CEDEAO.

Acrescentou ainda que a representação da Guiné‑Bissau em Macau, as parcerias regionais africanas e a cooperação com a diáspora guineense na China podem desempenhar um papel determinante na promoção dos produtos nacionais.

“Quando falo da diáspora, refiro‑me a estudantes, empresários e cidadãos guineenses que se encontrem na China, independentemente do estatuto que possuam”, frisou.

Por: Filomeno Sambú / Assana Sambú
odemocratagb

Sem comentários:

Enviar um comentário