Lisboa, 18 fev 2026 (Lusa) — O enviado especial da União Africana para a Guiné-Bissau salientou que há ainda muito trabalho a fazer para o país regressar à ordem constitucional, “legítima, inclusiva e aceite por todos”, enquadrando assim a sua deslocação a Bissau quinta-feira.
A deslocação, anunciada hoje por Bissau, segue-se à passagem de Patrice Trovoada por Adis Abeba, onde aproveitou a presença na cimeira da União Africana (UA), que terminou domingo, de “praticamente todos os atores políticos do continente”, para contactos, disse em declarações recolhidas pela RFI para esta rádio francesa e para a Lusa.
As reuniões com o presidente da Comissão da UA, Mahmoud Ali Youssouf, e o presidente em exercício da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Julius Maada Bio, Presidente da Serra Leoa, mas também contactos “com outros chefes de Estado e personalidades de relevo”, foram para colher impressões e conselhos, disse.
É a CEDEAO que está na linha da frente desta mediação, em coordenação com a União Africana, e Patrice Trovoada adiantou que vai a Bissau na posse de elementos que resultam do trabalho de acompanhamento da situação do país desenvolvido por muitas organizações, valorizando todas, incluindo a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a União Europeia.
“A Guiné-Bissau tem sido acompanhada pela União Africana (que fez várias missões ao país) e não só, pelas Nações Unidas, às vezes por bons motivos, às vezes por maus motivos. Então, todos esses elementos são elementos que estão em minha posse, são elementos de apoio que vão servir à minha missão”, disse.
Porque “toda a gente concorda que há ainda muito trabalho a fazer” e “qualquer missão da CEDEAO, da União Africana e até fora do continente que possa ajudar ao restabelecimento da ordem constitucional e legítima em Guiné-Bissau são bem-vindas”, afirmou o também ex-primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe, que referiu inclusive a União Europeia e a CPLP.
“Temos sempre as Nações Unidas, o Conselho de Segurança, nós temos a União Africana, a CEDEAO, temos também a CPLP, que é uma organização importante com países africanos importantes, e temos, evidentemente, a União Europeia, que é um grande parceiro também do continente (….). É evidente que contactos serão estabelecidos com todos esses parceiros”, referiu o enviado especial da UA para a Guiné-Bissau.
Sobre as eleições anunciadas para dezembro pelo Governo de transição da Guiné-Bissau, e depois de, na Cimeira da UA, o Presidente de Angola, João Lourenço, ter afirmado que estabelecer a ordem constitucional após golpes de Estado não é realizar eleições em que os autores dos golpes se fazem eleger, Patrice Trovoada disse que “o importante é chegar a uma situação de normalidade”, e que “há várias ferramentas”.
“O que é importante é que, deste episódio, que todos nós lamentamos, se possa chegar a uma situação de normalidade, mas que traga com ela estabilidade para os guineenses, credibilidade para os guineenses e para a comunidade internacional. Este é o objetivo. Há várias ferramentas”, realçou.
“[O Governo de transição marcou as eleições para uma data [06 de dezembro], tomamos nota e vamos falar”, referiu, salientando que “não são coisas fáceis”, mas que confia em que, “dialogando e associando todos, nomeadamente os guineenses, ouvindo os guineenses, também olhando o que foi o passado, as várias tentativas, os vários modelos, os acontecimentos”, é possível haver o progresso para saída da crise.
Patrice Trovoada foi nomeado a 23 de janeiro enviado especial da UA pelo presidente da comissão com o propósito de apoiar os esforços da organização para restaurar a ordem constitucional na Guiné-Bissau.
Após o golpe militar de 26 de novembro de 2025, na véspera do anúncio dos resultados das eleições gerais realizadas três dias antes, a Guiné-Bissau foi suspensa de várias organizações internacionais que pedem a retoma da ordem constitucional e a libertação dos presos políticos, nomeadamente, a União Africana, a CEDEAO e a CPLP, que substituiu a Guiné-Bissau na presidência rotativa por Timor-Leste, um facto de gerou tensões entre Bissau e esta organização.

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